sábado, 29 de outubro de 2011

Teologia Bíblica: "Jesus Cristo em Paulo: uma abordagem sintética da cristologia paulina"



O que Saulo como estudioso da lei, no entanto não convertido ao Evangelho difere de Paulo o Apóstolo do Evangelho é a sua maneira como compreende Cristo Jesus; em seu olhar e compreensão, se apresenta totalmente diferente, isto entre o antes e o depois de sua conversão (LADD, 2001, p. 383).
Paulo desenvolve um conceito de Christos
[i] posterior aos evangelhos, nos evangelhos Christos é um título, enquanto que na teologia paulina ele é um nome própria, descreve uma pessoa, suas atribuições, seu caráter, sua vivacidade. Taylor apud in Ladd, acredita que apenas uma vez Paulo cita Christos como um título, em Rm. 9: 5; outros teólogos acreditam que a designação de título caiba nos textos de Rm. 10: 6; 1Cor. 10: 4; 15: 22; 2Cor. 4: 4; 5: 10. No entanto, a maior parte das vezes permanece como quase consenso, ser designação de nome próprio.
Morris concorda com a interpretação de Vincent Taylor, sobre a maneira como Paulo emprega a terminologia Christo, seu significado e a sua relação com Jesus; Paulo é quem mais usa o termo Christo; o autor ainda cita que aparece em todo o no Novo Testamento são 529 ocorrências sendo que 379 se encontram nos escritos paulinos, isto representa cerca de 72% (2003, p. 48). Para Ladd, o fato de Paulo não se referir freqüentemente a Jesus como Messias não diminui a importância desta doutrina, haja vista que Paulo o reconhece primeiramente no próprio processo de conversão, assim como ao longo de seus escritos Jesus retém as funções de Messias, p. ex.: A sua vinda é interpretada na história da redenção de Israel, dos pactos, da lei, das promessas (Rm. 9: 5); sua vinda cumpre as promessas feitas pelos profetas (Rm. 1: 2); sua missão é cumprida de acordo com as Escrituras (1Cor. 15: 3); é preservado em Jesus as funções do esperado redentor escatológico e ainda aparecerá em glória e estabelecerá o seu reino (2Tm. 4: 1; 2Tss. 1: 5); será o juiz dos homens (2Cor. 5: 10), Ele destruirá os injustos (2Tss. 2: 8). Ainda que sua missão primeira seja estabelecer o reino de Deus no mundo. Riderboos afirma que somente é possível abordar a estrutura fundamental da pregação de Paulo a partir de sua cristologia (2004, p51).
Provavelmente, pelo fato de Paulo não ter empregado o termo messias com a finalidade de defendê-lo diante dos leitores, mas de tê-lo utilizado como nome próprio, indica que o seu uso comum revelava a aceitação de seu caráter messiânico pelos seus ouvintes. Jesus, quando Paulo escreveu suas cartas, possivelmente não era contestado como messias pelo seu público; como afirma James Dunn:


(...) a afirmação cristã segundo a qual Jesus era Messias não era mais controvérsia. Paulo não tinha mais necessidade de argumentar que Jesus era de fato o Messias davídico de Israel esperado há muito tempo (DUNN, James D. G., 2003, p. 240).

Paulo somente pode ser explicado à luz do advento de Cristo. Paulo, embora fale muito pouco sobre o tema ‘Reino de Deus’ ele é fundamental em sua teologia, bem como o caráter messiânico de Jesus; ele retrata a inteira missão de Jesus em termos de seu Reino, fazendo isto ele associa o Reino de Deus com a ressurreição e a salvação. “O Reino de Cristo como o Messias começou com sua ressurreição. Estará concluído apenas quando ele ‘haja posto todos inimigos debaixo de seus pés’ (1Cor. 15: 25) (LADD, 2001, p.384)”. O Reino de Deus é salvação escatológica, mas também é uma bênção presente, Cristo liberta homens do reino das trevas para o seu Reino no presnte (Cl. 1: 13). Para Riderboos no pensamento paulino ocorre à mescla de duas eras, ou seja, ‘a era futura irrompia na era do presente’ e quando ele fala do gemer da criação e da Igreja do mundo presente, isto se trata não de uma redução, mas de uma confirmação da redenção vindoura (Rm. 8: 13). Portanto Paulo não prega uma tensão entre presente e futuro no Reino, antes uma imersão do futuro no presente, por isso ele utiliza termos escatológicos tanto no presente como no futuro, nos ocasionando a chamada tensão do “já-agora e ainda-não” do Reino de Cristo. O Apóstolo não prega em termos de ‘eras’, para ele o futuro invade o presente na história da salvação, nós é que pensamos presente e futuro como ambigüidades.


A revelação de Jesus Cristo como o Messias prometido por Deus a Israel determina e cria a consciência histórica e o pensamento escatológico de Paulo e não o contrário. Quem Cristo é e o que ele faz, qual é a relação entre o tempo da salvação que teve início com ele e o futuro que ainda deve ser esperado, nada disso é determinado por pressuposições teológico-escatológicas, mas apenas coletado pelo apóstolo da maneira inesperada e irrestível pela qual Deus, em Jesus Cristo, cumpriu e irá cumprir a promessa redentora (RIDERBOOS, Herman,2004, p.55).

Outro aspecto importante de Jesus Cristo em Paulo é a sua humanidade. Embora Paulo não faça muita referência acerca da vida terrena de Jesus, ele diz mais do que certamente pensamos acerca da humanidade do Jesus Homem. Diz-nos que Jesus é homem (1Cor. 15:21), nascido de uma mulher (Gl. 4: 4), descendente de Davi (Rm 1: 3) e pobre, apesar de sua linhagem real (2Cor. 8: 9). Tinha irmãos (1Cor. 9: 5), (MORRIS, 2003, p. 50). Jesus era manso e benigno e obediente ao Pai (2Cor. 10: 1; Fp. 2: 8). Foi morto (1Tss. 2: 15), pelo método da crucificação (Gl. 6: 14), foi sepultado e ressuscitado depois de três dias (1Cor. 15: 4).
Paulo fala de Cristo com o último Adão (1Cor. 15-45-47), para Shedd na teologia paulina, a desgraça humana é solidariedade
[ii] moral no pecado e a justificação é moldada em termos éticos de santidade e pureza moral absoluta (Ef. 5: 27; 4: 17 – 5: 16). Adão é representante realístico da raça, vejamos o que afirma o autor em sua tese doutoramento:


Um homem (neste caso Adão) pecou. Por ser representante realístico da raça, sua transgreção original não era isolada: de modo coletivo, ela envolvia toda a raça. É a posição de Adão como o cabeça arquetípico da raça, que ele incorpora como uma personalidade coletiva, que faz com que sua rebelião contra Deus seja a revolta do seu grupo. Dentro de tal conceito (especialmente na forma em que se encontra no Antigo Testamento), Paulo podia muito bem considerar idênticos o indivíduo e o grupo. Essa identidade é evidente e frases como ‘em Adão’ (cf. 1Cor 15. 2), que se opõe retamente à expressão ‘em Cristo’ (SHEDD, Russel P., 1995, p. 22).

A partir das afirmações de Shedd perceberemos que o juízo coletivo de Deus, aplicado com base na personalidade coletiva da raça, isto é, sua solidariedade, é legitimado pelo envolvimento intencional do indivíduo na culpa (p.23). Quando passa a expor a doutrina da expiação de Cristo, o apóstolo enfatiza a humanidade de Cristo. Quando Cristo assumiu um corpo e a morte, ele desafiou, com sucesso, o controle do pecado sobre a carne; por conseguinte, aqueles que estão incluídos nele são arrancados do velho eão[iii] e de seus poderes perversos, do pecado, da morte e da lei (Rm. 8:3; 7: 34).
Estar em Cristo para Paulo é uma fórmula que expressa ‘a solidariedade entre Cristo e os membros da comunidade’ (SHEDD, 1995, p. 147). A comunidade que transmite vida no presente (Ef. 2: 1-10; Rm. 6: 5-11; Gl. 3: 27), no futuro (1Cor. 15: 22, 50-57; 1Tss. 4:13-17). Nesse sentido e contexto “Paulo anuncia que o propósito e a graça de Deus foram manifestados em Cristo Jesus”, o qual ‘não só destruiu a morte, como trouxe à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho’ (2Tm. 1: 10) (p. 147).

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[i] Uma melhor discussão do conceito do uso do termo Christos em Paulo pode ser melhor estudado em LADD, George Eldon. Teologia do novo testamento. São Paulo: Hagnos, 2001. (capítulo 30 – a pessoa de Jesus Cristo); ver também in: MORRIS, Leon. Teologia do novo testamento. São Paulo: Vida Nova, 2003.[ii] A respeito do conceito de Solidariedade da raça, ver na tese de Shedd; SHEDD, R. P. Solidariedade da raça: o homem em adão e em cristo. São Paulo: Vida Nova, 1995. Ver também in: DUNN, James D. G. A teologia do apóstolo Paulo.São Paulo: Paulus, 2003.[iii] SHEDD expõem que Paulo explica que para o propósito de compreendermos o conceito de personalidade coletiva, na natureza pelo viés da teologia paulina, é suficiente limitar a discussão a aiõn e kosmos. A expressão aiõnos toutos, “esta era”, “este século” (cf. Rm. 12: 2; 1Cor. 1: 20; 2: 6, 8: 3:18; 2Cor. 4: 4; Gl. 1: 4), ou tou aiõnos tou enestõtos (Ef. 1: 21), ou ho nyn aiõn (1Tm. 6: 17; 2Tm. 4: 10; Tt. 2: 12) é um conceito total que se refere tanto ao tempo quanto à esfera de atuação. Simultaneamente o termo Kosmos pode denotar o relacionamento total entre a criação e a era (cf. 1Cor. 3: 19; 7: 31).

Tudo posso naquele que me fortalece (Fp. 4:13).

"Tudo posso naquele que me fortalece", ao contrário da tônica triunfalista empregada por diversos setores evangélicos, representa na verdade uma das maiores expressões de contentamento do Apóstolo Paulo.
Antes de Paulo ancorar esta expressão em sua carta, ele afirma ter aprendido o sofrimento, e tal expressão "posso todas as coisas", significa um contínuo aprendizado que o apóstolo alcançou contido de uma capacidade de suportar o sofrimento, tudo isto pela graça do Senhor Jesus Cristo em sua vida.
Talvez tenhamos que aprender a nos contentar um pouco mais com o que temos no mundo em que vivemos, relendo palavras como estas do apóstolo Paulo.

Alexandre da Silva Chaves

Alexandre da Silva Chaves