sábado, 18 de julho de 2009

A Teologia: equilibrio entre conhecimento e espiritualidade e o valor dos estudos para a comunidade da fé!


Discurso[1] dos Formandos de Teologia da EST/Mackenzie-2º semestre de 2009


Excelentíssimo Senhor Diretor da Escola Superior de Teologia, Professor Dr. Herminstein Maia Pereira da Costa;
Ilustríssimo Senhor Patrono de nossa turma Professor MS. Carlos Cesar Mendes Ribeiro;
Ilustríssimo Senhor Paraninfo, Professor MS. Silas Luiz;
Ilustríssimas autoridades presentes e Caríssimos professores;
Prezados funcionários do Mackenzie;
Senhores pais, demais convidados
Prezados colegas aqui presentes,


Devo afirmar a todos que me sinto profundamente honrado em representá-los neste ato tão cheio de emoção para todos nós.
Apesar de sentir um estranho misto de pavor e coragem, é com determinação, alegria e disposição que participo aos presentes um pouco das angústias e alegrias que obtivemos ao longo destes 4 anos de caminhada.
Gostaria de resgatar à nossa memória, e expor aos presentes de maneira especial, duas questões que marcaram profundamente as nossas vidas e formação.
- A primeira questão desenvolve a discussão entre um exigente equilíbrio entre ser espiritual e o expor uma fé suficientemente inteligente.
O teólogo Alister MacGrath, afirma, que:

O teólogo não é alguém que se posiciona acima da comunidade de fé, e sim alguém que está profundamente envolvido em sua vida de culto, oração, adoração e evangelização (MacGrath, 2007, p. 16).

Houve um esforço contínuo de todos deste grupo em aliar a oração, a leitura da Bíblia e a prática da fé, com as duras e exigentes leituras dos textos da academia.
Mantivemos durante estes anos, contato com a teologia evangelical, sustentando a fé viva na Palavra de Deus e Jesus Cristo como seu único Filho e Salvador. Isto nos direcionou em nossos propósitos e vidas durante este curso, não nos deixando perder os valores e os princípios que nos foram outorgados por Cristo durante nossas vidas, pois de acordo com o bispo Anglicano Robson Cavalcanti:


...as principais características do evangelicalismo latino-americano são o uso de ferramentas das ciências sociais e a abertura para a teoria dialética, sem desprezar (...) a autoridade das Escrituras, a adoção dos credos históricos e das confissões de fé reformada em seus pontos convergentes, crença na necessidade da experiência de conversão e de uma visão missionária evangelística (Caldas Filho, 2007, p.44).
Uma das grandes tentações que vivemos dentro da academia, é a da possibilidade de negociarmos os nossos valores e crenças fundamentais nas Escrituras em detrimento dos valores e crenças de uma cultura que é resultado de uma ciência que domina a tecnologia de uma época.
MacGrath afirma que:
...nenhum avivamento na história jamais nasceu de um interesse renovado em teologia puramente acadêmica. (...) Teologia é o que irrompe de uma comunidade de fé autoconfiante e pensativa, refletida, e está de posse de uma visão esclarecedora sobre a razão por que ela existe e sobre o que se propõe fazer (MacGrath, 2007, p. 13).
Neste processo vêem-se mais do que uma cooperação arranjada de pontos fundamentais da fé com metodologia e valores modernos de ciência, em favor de uma pseudo-teologia acadêmica, revestida sob o pretexto de ser uma teologia bem mais acabada ou “cientificamente mais válida”. Contudo, o que percebemos é uma sutil tentativa de eliminar o elemento da fé da interpretação das Escrituras.
Rogamos Pai, que nos enviasse através de seu Filho Jesus Cristo o seu Santo Espírito e nos auxiliasse na interpretação e compreensão das Escrituras, a fim de que existisse durante estes anos, em nossa formação como teólogos, o binômio espiritualidade-racionalidade.
- A segunda questão apresenta-se sobre a seguinte pergunta: Qual a relevância de se estudar teologia?
Podemos meditar nesta pergunta a partir dos termos de uma teologia comprometida com uma ação concreta, que promova a celebração do amor, da fraternidade e da comunhão com o próximo, como razão de seu serviço e como fim último a glória de Deus.
Dietrich Bonhoeffer, teólogo alemão, escreveu em 18 de julho de 1944: “o cristão está desafiado a participar dos sofrimentos de Deus nas mãos de um mundo ímpio” (Brown, 1999, p. 134).
Ser um cristão não significa ser religioso d’alguma maneira específica, (...) Não é algum ato religioso que faz com que o cristão seja aquilo que é, mas, sim, a participação no sofrimento de Deus na vida do mundo (Brown, 1999, p. 136).

O teólogo, conforme a afirma o Prof. dr. Antônio Máspoli, precisa ser capaz de desenvolver objetivos altruístas; parafraseando o poeta e compositor Milton Nascimento, afirma: “o teólogo vai onde o povo está”.
A velha concepção de que o teólogo conhece a partir de reflexões produzidas em torres de marfim do saber teológico, ou como afirma Leonardo Boff “a partir dos Vitraux de Roma”, não tem lugar na modernidade e penso que nem mesmo serve a Igreja como comunidade da fé.
Complementando esta idéia de uma teologia que sirva a comunidade da fé, gostaria de citar mais uma vez MacGrath:
Uma igreja sem nenhum senso de visão e propósito, com falta de quaisquer expectativas do que Deus poderia fazer com ela, leva inevitável e diretamente a uma teologia cansada, fora de foco e irrelevante (2007, p. 13).
O teólogo porto-riquenho Orlando Costas, também considerou este fato:
Porque a teologia não é um simples exercício intelectual, não é uma mera disciplina acadêmica. É da reflexão da palavra de Deus num contexto concreto e específico, que a teologia surge de, e desemboca em, o anúncio encarnado do evangelho. Sem pregação, a teologia não tem nada a dizer a igreja e carece de paixão e energia, terminando em um ativismo social barato e uma alienante torre de marfim (1982, p.8).
Neste exercício, o teólogo elege como texto áureo de seu trabalho, as palavras do apóstolo São Paulo em 1 Coríntios capítulo 13 e versículo 1:
Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine (ARA, 1995).
“O teólogo deve viver a compreensão de que o mundo amado por Deus compreende a ordem de coisas que se rebelou contra o Criador, portanto, o teólogo deve estar equipado para a solidariedade e engajamento no mundo” (Máspoli, 2007, p.33); deve manter um diálogo e uma familiaridade com os anseios, as angústias, as alegrias e os sofrimentos mais profundos do homem e da comunidade onde ele vive. Podemos recordar de um verso de uma canção de Chico Buarque de Holanda, onde afirma:

...que se há de entender que o amor não é um ócio
E compreender que o amor não é um vício
O amor é sacrifício, o amor é sacerdócio,
Amar é iluminar a dor como um missionário.
(Viver do Amor – 1ª versão).

É apenas no fazer, na ação, na prática e na aplicação do teólogo dentro da comunidade do povo de Deus, que se consuma e que se realiza o teólogo. Jesus nos afirmou que: “Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha” (MT. 7: 24ss.).
Os fariseus não erraram ao apontar, com todo o vigor, para a necessidade da ação, mas no fato de eles próprios não chegarem ao fazer. Eles não fazem o que ensinam. Concordamos com Dietrich Bonhoeffer , pois ‘se a Escritura exige ação, ela com isso não remete o ser humano à sua própria capacidade, mas ao próprio Senhor Jesus Cristo’ que afirmou “sem mim nada podeis fazer” (Jo. 15: 5) (2005, p.29).
Enfim, aprendemos e acreditamos, durante estes 4 anos de convivência com funcionários, alunos, familiares e com as nossas próprias comunidades, que o teólogo só se faz, só se realiza quando este serve a Igreja de Jesus Cristo no mundo da nossa existência e da superação das nossas próprias fraquezas.
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[1] Proferido por Alexandre da Silva Chaves, formando em Teologia do 2º Semestre – Orador da Turma

Tudo posso naquele que me fortalece (Fp. 4:13).

"Tudo posso naquele que me fortalece", ao contrário da tônica triunfalista empregada por diversos setores evangélicos, representa na verdade uma das maiores expressões de contentamento do Apóstolo Paulo.
Antes de Paulo ancorar esta expressão em sua carta, ele afirma ter aprendido o sofrimento, e tal expressão "posso todas as coisas", significa um contínuo aprendizado que o apóstolo alcançou contido de uma capacidade de suportar o sofrimento, tudo isto pela graça do Senhor Jesus Cristo em sua vida.
Talvez tenhamos que aprender a nos contentar um pouco mais com o que temos no mundo em que vivemos, relendo palavras como estas do apóstolo Paulo.

Alexandre da Silva Chaves

Alexandre da Silva Chaves