segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Reflexões sobre a Igreja Pentecostal de Atos dos Apóstolos



A Santa Ceia, que também é denominada de eucaristia desde a igreja primitiva, tem se tornado celebração de "comunhão" entre muitos irmãos na modernidade, mero ritual da igreja; ela que sempre foi postulada como fator de inclusão no corpo de Cristo e dele expressão de verdadeira comunhão, passou a celebrar a exclusão dos mais fracos, além de impossibilitar os mais pobres de chegarem à mesa.


O teólogo Ivo Storniolo, afirma baseado na leitura de Atos dos Apóstolos capítulo 2 e versos 42-47, que a igreja primitiva celebrava a ceia diariamente de casa em casa, era parte, o que conferia em parte a instituição de uma refeição comunitária onde as exigências fundamentais para a sua realização era apenas a existência de alegria e de simplicidade de coração (1993, p.45), tal evento era capaz de possibilitar a oportunidade dos diferentes se assentarem juntos, fazendo-os refletir sobre suas semelhanças; sendo que, o rico poderia se assentar junto com o pobre, o escravo junto ao seu senhor, o doente com o que estava são, o desempregado com o agricultor etc. (1993, p. 46).

“A eucaristia se tornava o anúncio profético de uma humanidade reconciliada” (p.46), exaltando desta forma o maior de todos os dons (1 Cor. 13), que era o amor. O teólogo José Comblin utiliza parte para uma metáfora dentro do contexto latino-americano, e afirma que tal comunhão poderia ser cumprida se os grandes latifundiários de nosso país se assentassem à mesa em associação com mendigos e pobres camponeses (1988, p.31); e que ricos e pobres poderem comer na mesma mesa era fenômeno fora do comum para aquela época, pois as assembléias foram feitas para os cidadãos das polis (cidades), onde geralmente eram os mais privilegiados e abastados que participavam.

Uma das maiores realizações pentecostais da Bíblia está localizada em Atos dos Apóstolos capítulo 2, e isto não era a glossolalia (falar em línguas), mas a nascente fonte de amor produzida pelo Espírito no coração daqueles cristãos.

A presença do Espírito Santo produziu naquelas pessoas algo mais nobre do que o falar em línguas diferentes da dos nativos, isto quer dizer que foram capacitados a fim de terem tanto os bens mais caros à época tal como propriedades, assim como os mais simples, tal como o pão diário, de maneira comum. Isto era característica do pentecostalismo de Atos, prática que está se tornando rara entre pentecostais da atualidade (GOURGUES, 1990, p.54-62).

Para aqueles pentecostais “tudo era comum entre eles”; tei koinonia = comunhão fraterna At. 2. 42, e tudo lhes era comum = koina v.44, entre eles existia uma comunhão de família, de sorte que todas as coisas eram comum entre eles, não havia um único dono, tudo era dividido comunalmente entre os irmãos, até o pão era partido pelas casas klontes arton, o que indica que além de dividir a alimentação diária, a realização da Santa Ceia provocava a comunhão do espaço das moradias que serviam de refúgio para os irmãos mais necessitados.

A igreja pentecostal primitiva foi marcada pelo estilo de vida comunitária e as suas principais características eram vida de comunhão na comunidade pela oração, submissão consciente a doutrina, o partilhar do pão e dos lares com os menos afortunados, tudo isto acontecia conforme Atos 2. 42-47, (V.V; A.A, 1993, p.46-48).

O capelão da coroa inglesa, o pastor John Stott, afirma que a igreja de Atos 2. 42 à 47, era uma igreja cuja expressão era expressão de amor (agapao), ele a chama de “a igreja que amava” (1994, p.87), pois para Stott o testemunho perseverante da vida comunitária, que renunciava o egoísmo da individualidade, somente era possível à uma igreja que perseverasse em comunhão koinonia, koinos. Do contrário não era possível viver uma pura comunhão. Era uma comunhão trinitária, pois era produzida pela própria trindade.

Aquele tipo de comunhão, foi comunhão produzida pelo próprio Espírito Santo de Deus, Ele envolvia a igreja no amor paterno de Deus (Pai), um amor que somente pode ser alcançado pela obra de Seu Filho Jesus Cristo. Era uma reprodução um pouco mais clara da imagem de Deus no homem, a qual havia sido manchada pelo pecado, uma imagem da comunhão trinitária que estaria sendo resgatada pela atuação do Espírito Santo sobre a humanidade caída.
Contudo é preciso uma ressalva, na comunidade evangélica primitiva nem todos vendiam tudo que possuíam, e a prova de que nenhum membro da igreja era obrigado a vender suas propriedades, era o fato de os irmãos irem comer nessas casas, ou seja na casa de outros irmãos (STOTT, 1994, p.89).

Recapitulando, é preciso refletir que a verdadeira comunidade pentecostal possui as marcas da igreja de Atos dos Apóstolos capítulo 2, a qual não era simplesmente o falar em outras línguas, e que tais marcas não podem ser manipuladas em favor de determinado dogma institucional (doutrina pentecostal, reformada ou etc.), ou mesmo pelo individualismo cego e egocêntrico do mundo moderno (modo de vida de acordo com o capitalismo, visão de resultados e lucro), que é explícito principalmente em nações desenvolvidas ou em desenvolvimento no século 21; lembrando-nos sempre, que a base pentecostal da igreja primitiva não são os sistemas econômicos modernos, comunismo ou capitalismo, mas o modo comunal do amor cristão vivido em sua mais alta consideração pelo próximo.

Busquemos urgentemente ser uma igreja relevante para os nossos dias como afirmava Bonhoeffer, relendo e revivendo a igreja de Atos dos Apóstolos, a verdadeira igreja pentecostal, a fim de não nos tornarmos vazios como sinos e latas que somente reproduzem sons (línguas estranhas) sem significados e sem podr de despertar a mínima transformação no interior dos homens.

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STOTT, John R. W. A mensagem de atos: até os confins da terra. São Paulo: ABU, 1994.

V.V; A.A. Uma leitura dos atos dos apóstolos. 2ª ed. São Paulo: Paulinas, 1983.

GOURGUES, Michel. Atos 1-12 missão e comunidade. São Paulo: Paulinas, 1987.

COMBLIN, José. Atos dos apóstolos. Petrópolis: Vozes/São Bernardo do Campo: Metodista/ São Leopoldo: Sinodal, 1988.

STORNIOLO, Ivo. Como ler os atos dos apóstolos. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 1993.

Tudo posso naquele que me fortalece (Fp. 4:13).

"Tudo posso naquele que me fortalece", ao contrário da tônica triunfalista empregada por diversos setores evangélicos, representa na verdade uma das maiores expressões de contentamento do Apóstolo Paulo.
Antes de Paulo ancorar esta expressão em sua carta, ele afirma ter aprendido o sofrimento, e tal expressão "posso todas as coisas", significa um contínuo aprendizado que o apóstolo alcançou contido de uma capacidade de suportar o sofrimento, tudo isto pela graça do Senhor Jesus Cristo em sua vida.
Talvez tenhamos que aprender a nos contentar um pouco mais com o que temos no mundo em que vivemos, relendo palavras como estas do apóstolo Paulo.

Alexandre da Silva Chaves

Alexandre da Silva Chaves