domingo, 20 de março de 2011

O que é ser de tradição protestante na América Latina? (tradição e identidade)

A palavra tradição, originada do latim traditione,  traz consigo a possibilidade de se aprender por meio de comunicação ou transmissão de notícias, composições literárias, doutrinas, ritos, costumes etc., feita de pais para filhos no decorrer dos tempos ao sucederem-se as gerações.

Pretendo me utilizar do pensamento e da teoria do Teólogo  Argentino, José Miguez Bonino, que propõe uma chave hermenêutica para compreendermos o protestantismo latino-americano, por meio de suas múltiplas identidades.



Bonino, chama esta identidade de "Rostos". Rostos seria uma tipologia, um tipo ideal de evangélico. O autor os classifica como evangélicos de rostos distintos, por causa de suas origens, formações e influências culturais:

1-"rosto liberal";
2-"rosto evangélico sombriado e iluminado";
3- "rosto pentecostal e
4-"rosto étnico".

Tentarei definir de forma demais suscinta cada rosto do protestantismo, o que não me garantirá apresentá-los perfetamente as definições de Bonino, contudo aconselho ao leitor que leia a obra, cujas referências estarão no rodapé, ao final deste artigo.

(1)Rosto liberal
O rosto liberal têm mais haver com o projeto político latino-americano, do que aproximação com a teologia européia, muito menos com a teologia Alemã. Não se trata de uma leitura intelectualizada das escrituras, esta nota da teologia ficou muito aquém de uma compreensão popularizada de seus textos pelos líderes religiosos da América Latina.

A América Latina tinha outros assuntos como que se preocupar a fome, a falta de liberdades civis, a falta de emprego, o recesso pós-escravidão, o preconceito com o negro e com o indio, a política de povoamento de nossas terras por meio de imigração.

Tais fatores políticos, fortaleceram em seu bojo, um evangélico progressista, que queria acompanhar a república, que buscaria uma teologia que respondesse as questões ligadas ao cotidiano das pessoas, fazendo com que essa teologia decesse dos palácios dogmaticos em que viviam encasteladas e alcançasse as pessoas comuns.
O projeto liberal queria, por meio da religião levar educação, democracia e desenvolvimento social. Rubem Alves chamou o projeto liberal de "projeto utópico" do protestantismo na América Latina e descreveu o seu naufrágio no protestantismo da reta doutrina.

(2) O rosto evangélico
Esses tipo de evangélico é utilizado nuna concepção anglo-saxã. São pessoas que confessam a confiança plena na Bíblia, ensinam a mensagem da salvação que Deus oferece aos pecadores  por meio da morte de Jesus Cristo. Nesse grupo há uma crença de que a aceitação da mensagem conduz a eternidade, enquanto que a sua negativa a perdição e morte. São formados por uma maioria missionária, frutos de grandes avivamentos do fim do século XIX. Esses evangpelicos correspondem crecimento da população urbana, superam o conflito entre a tradição calvinista e a tradição arminiana, acrecenta um alto grau de subjetivismo nas mensagens e busca um despertamento religioso acompanhado por reforma social. São essas algumas características difusas nesses movimentos de rosto evangélico. Dentro do rosto evangélico situam-se tradições como: fundamentalistas, liberais, carismáticos e movimentos como os pentecostais.

(3) O rosto pentecostal (do protestantismo latino-americano)
Todas as histórias desse rosto, seguindo o pensamento de Miguez Bonino, tem seu inicio com o movimento do despertar associado ao nome do missionário Willis C. Hoover, da Igreja Metodista, e á cidad de Valparaíso, no Chile, e continuam Com Luigi Francescon na Argentina e em São Paulo fundando a Congregação Cristã no Brasil se expandido em todo sudeste brasileiro, e com as Assembléias de Deus no Pará e e em todo o nordeste brasileiro. O pentecostalismo se multiplica, se diversifica e expande, e a partir da década de 50 se apresenta como o rosto popular do protestantismo na América Latina. Em 1938, 14.500 crentes, em 1950, 1 milhão, em 1980 cerca de 37 milhões de crentes na América Latina. Aguardando a divulgação do Censo 2010 no Brasil, acredita-se que somente no Brasil já sejam mais de 40 milhões.
Um pequeno esboço da teologia pentecostal:
a) visão maniqueísta do mundo; b) determinismo e pessimismo antropológico; c) reapropriação popular e social do Poder de Deus, por meio de uma reinterpretação da presença do Espírito Santo, de seu batismo e de sua atuação na vida dos crentes na atualidade; d) eliminação de um sacerdócio intelectual e mediador diante de Deus e da Bíblia, no pentecostalismo cada crente pode ler, interpretar e ensinar-pregar à outros e e) uma igreja militante a qual se ingressa por opção pessoal na conversão, nela se subordina interesses pessoais, se participa de maneira plena e se assume um compromisso total acerca da vida.

(4) Um rosto étnico do protestantismo
 O problema desse rosto encontra-se primeiramente no título, "étnico". O que é etnicidade? Invoquemos a ajuda de R. Narrol e destaquemos quatro indicadores: 1-) uma comunidade que em grande medida se perpetua biologicamente a si mesma; 2-) compartilha valores culturais fundamentais realizados com unidade manifesta em formas culturais; 3-) integra um campo de comunicação e interação e 4-) conta com membros que se identificam  e são identificados por outros e que constituem uma categoria distinguível de outras categorias da mesma ordem.
A importância e a significação que a dimensão religiosa tem na definição da identidade étnica variam consideravelmente de um grupo, e de um momento para outro. Ilustremos essas variações de "Igrejas Étnicas", sobretudo em igrejas originadas da imigração. Existe uma linha extremamente tênue entre protestantismo de missão e de imigração.
Utilizando o vocabulário corrente nas igrejas protestantes européias, passa entre "igrejas livres" e as "igrejas territoriais" ou "nacionais" ou "do povo" (volkskirchen), de algum modo vinculadas organicamente ao estado ou pelo menos a nação. A clássica obra de Ernest Troeltsch intitulada Die Soziallenhren der Christlichen Kirchen und Gruppen ["As doutrinas sociais das igrejas e grupos cristãos], de 1912, consagrou os termos "igreja" e "seita" como categorias sociológicas características, justamente, das igrejas - que concebem como coincidentes com um povo, das quais se faz parte por nascimento e que se integram com a cultura nacional, têm relação orgânica com o estado e não praticam o proselitismo fora de suas fronteiras - e das seitas - que são formações voluntárias, nas quais se entra por decisão pessoal, que praticam majoritariamente o "batismo de conversos", são contraculturais, não têm vinculação com o estado e praticam o proselitismo.

O vocabulario de Troeltsch e Max Weber assumiu significados que os autores não lhe quiseram dar, transformando uma caracterização sociológica numa luta por legitimação doutrinal e até legal. Trata-se de duas formas de ser igreja que têm permeado a história, ao menos desde o século 4, e cuja fundamentação teológica e concepção missionária e pastoral com certeza continuarão presentes, não necessariamente entre igrejas particulares, e sim no seio das próprias igrejas. Não obstante, creio que - ao menos na situação latino-americana - temos de relativizar as diferenças entre um e outro modelo.
Alguns exemplos de Igrejas consideradas étnicas que se consolidaram no Brasil; Igreja Luterana (Alemã), Igreja Epsicopal Anglicana (Inglesa), Igreja Reformada Holandesa (Holanda), Igreja Valdense (Norte da Itália), Igreja Presbiteriana de origem Escocesa (Escócia).

Considerações

Esse foi um panorama apresentado buscando compreender essas facetas do que é ser um protestante na américa-latina, contudo, seria interessante, que o leitor desse ensaio, procurasse ler a bibliografia que segue indicada na nota de rodapé, por tratar exaustivamente cada tema proposto. Esse formato de blog, não nos permite aprofundar. 

Observemos, que a constituição do protestante na américa-latina é plural, multifacetada; essa lógica de implantação da religião protestante revela uma necessidade de tolerância, e além da tolerância, da releitura constante de nossas histórias, bem como da formação e influência teológica que sofreram os nossos pais (fundadores de nossas igrejas).

Aliás, pensemos num só exemplo deste ponto, Daniel Berger e Gunnar Vingren, missionários batistas norte-americano de origem suéca. Quantas contradições não poderiam existir na formação desses homens, contudo, essa contradições tornam-se comlementares, como resultados de esforços subjetivo dos missionários, e ao mesmo tempo objetivo, quando estes se empenham na formação de uma nova comunidade, demonstrando uma personalidade úna, contudo difusa na "brasilidade" multifacetada.

Penso que, Berger e Vingren jamais desejaram uma igreja como a que temos hoje. Com certeza, nas primeiras décadas em que se afastaram da direção nacional da Igreja Assembléia de Deus, já perceberam que a igreja tomava outros rumos. Isto contudo, não é ponto somente negativo, não devemos somente chorar por não ter sido diferente, somente não podemos nos alienar dessa consciência, e com isto não reconhecermos de verdade quem somos, seja como evangélicos, protestantes históricos ou pentecostais.

Aliás, observo, pelo andar da carruagem, que vivemos tempos de enormes mudanças, e as igrejas percebem isto em suas estruturas, as quais não se sutentam, pois estão ancoradas num pensamento social e político brasileiro das décadas de 50, 60 e 70, tempos dos coronéis do nordeste brasileiro, das fazendas do sertão e da luta política e domíno São Paulo e Minas Gerais sobre o restante do Brasil. São esses pensamentos que dominam os ambientes eclesiásticos, pensamentos ancorados em discursos dos tempos da ditadura militar.

Como os tempos (atual momento) são outros e o momento atual não suporta mais tais ações, será preciso entender que a religião vive um processo de sólida mudança, cercada de crises, de desconfiança, de um vazio moral e ético nas instituiçõe e em suas principais lideranças, atormentadas pelo mercado que dita as relações e as formas de relações institucionais, a instituição vive um processo de falência.

Daí, a falência e a discrença nas instiuições (igrejas), pois os resultados proposto nos evangelhos, pela mensagem de Cristo, acontece muito bem na periferia da igreja,  na perfeita comunhão com o próximo em casa, na rua, no mundo; e isto necessariamente não passa por dentro de uma instituição, que aliás,  não está conseguindo sequer cumprir minimamente com esse papel de comunidade moral. 

Toda falência traz consigo uma nova proposta de renovação, uma outra coisa deve nascer, resta saber o que o povo de Deus quer? O que virá depois dessa falência da igreja como instituição? Vimos o que é ser de tradição protestante e o que estamos nos tornando, um apêndice do mercado, um objeto de consumo da prateleira do supermercado das religiões. 

E então, o que nos tornaremos amanhã?
Sinceramente, eu não sei,  e honestamente seria previsionismo e profetismo meu, mas não posso dizer aquilo que não sei. Mantenho-me pessimista!

  

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BONINO, José Miguez. Rostos do protestantismo latino-americano. São Leopolodo, RS: Sinodal, 2002.
BASTIDE, Roger. Osagrado selvagem. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p.250-275.
Michaelis: Dicionário de língua portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 2002.

Tudo posso naquele que me fortalece (Fp. 4:13).

"Tudo posso naquele que me fortalece", ao contrário da tônica triunfalista empregada por diversos setores evangélicos, representa na verdade uma das maiores expressões de contentamento do Apóstolo Paulo.
Antes de Paulo ancorar esta expressão em sua carta, ele afirma ter aprendido o sofrimento, e tal expressão "posso todas as coisas", significa um contínuo aprendizado que o apóstolo alcançou contido de uma capacidade de suportar o sofrimento, tudo isto pela graça do Senhor Jesus Cristo em sua vida.
Talvez tenhamos que aprender a nos contentar um pouco mais com o que temos no mundo em que vivemos, relendo palavras como estas do apóstolo Paulo.

Alexandre da Silva Chaves

Alexandre da Silva Chaves