sábado, 24 de março de 2012

"ELEITOS, MAS LIVRES."

Queridos amigos, tomei a liberdade de publicar uma boa resenha que um amigo em particular, o pastor Paulo Américo, resenhou do dr. Normam Geisler, cuja obra carrega o mesmo título da postagem "Eleitos, mas livres".

Acredito que este trabalho do Pr. Paulo Américo trará boa contribuição principalmente entre pentecostais, os quais tem crescentemente se interessado por essas duas antigas temáticas, as quais tem provocado enormes polêmicas.  

Calvinismo ou Arminianismo? As vezes, expressamos ambas as confissões! Como? Simples, desconfiamos de ambas e afirmamos ambas. Ora nos posicionamos convenientemente de um lado, para nos satisfazermos em nossas teologias, para dai acusamos o outro lado. Ora usamos os mesmos argumentos lógico que o oponente da discussão, simplesmente por que não sabemos explicar determinada posição teológica que tomamos.

Este texto constitui uma pequena contribuição para o início de uma discussão maior. 

O artigo não esgota a temática, afinal são quase 1600 anos discutindo este tema se contarmos de Santo Agostinho; mas caso queiramos contar de Calvino, Lutero e Jacob Arminius, são cerca de 500 anos e ainda não conseguimos encerrar o debate. O autor deste texto nem pretende encerra-lo. 

Para nos aprofundarmos na discussão teríamos que reler as cartas do apóstolo Paulo, além de ler outras fontes de diversos autores, como  João Calvino, Martinho Lutero, Theodoro de Bezza, Felippe Melanchtton, Jacob Arminius, além de Santo Agostinho, pilar fundamental dessa discussão.

Mas contentemo-nos com apoio do teólogo Paulo Américo Lopes, que nos introduz numa discussão milenar numa linguagem relativamente acessível a todos os públicos, leigos e doutos em teologia.

Passemos a palavra:

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* Paulo Américo Lopes (resenha)
(ipsis literis)


Historicamente o debate soteriológico entre Calvinismo e Arminianismo tem rugido há seculos. Ambos se alicerçam em bem-estabelecidos sistemas doutrinários que, apesar de caminharem paralelamente, ad infinitum, jamais se tocam. Prima facie, afiguram-se como sistemas autoexcludentes, contraditórios, irreconciliáveis, quando, na verdade, seriam melhor classificados como paradoxais.

 Ambas as verdades - a liberdade do homem e a soberania de Deus - inçam as páginas das Escrituras Sagradas. Todavia, em lugar algum das Escrituras detecta-se a preocupação de Deus, em desvendar os mistérios envolvidos neste secular paradoxo.

João Calvino (1509-1564) embasou sua teologia nos postulados paulinoagostinianos, os quais no Calvinismo Clássico se enunciam em seus famosos cinco pontos: Depravação total, Eleição incondicional, Expiação limitada, Graça irresistível e, Perseverança dos santos.

No pólo oposto, Jacó Armínio (1560-1609), então advogado da tese calvinista, ao se preparar para defender o supralapsarianismo, chegou à conclusão de que na qualidade de agente moral, o homem é, de fato, responsável por suas escolhas, portanto, moralmente imputável.  A partir daí, o eixo de sua teologia deslocou-se da soberania de Deus para o livre arbítrio humano. Os seguidores de Armínio e Episcopius redigiram uma declaração de fé chamada The Remonstrance, na qual seus  cinco pontos são assim resumidos: Eleição condicional, Expiação ilimitada, Depravação parcial, Graça resistível, Salvação perecível/ou imperecível.

Geisler, um erudito ortodoxo e conservador, possui as credenciais que o habilitam a mexer nesse vespeiro e a reacender velhas paixões. Num quase-atrevimento, ele oferece uma alternativa "equilibrada" tanto quanto isto seja possível, entre a eleição divina e o livre-arbítrio. A experiência que obteve ao longo dos anos de catédra, seu refinado treinamento filosófico, aliados a sua proficiência teológica fazem dele uma das vozes mais relevantes e significativas, em assuntos doutrinários polêmicos e controversos como o embate calvinista/arminiano. Com a maestria que lhe é peculiar, ele convida seus leitores a reexaminar textos de provas apresentados por ambas as escolas, e dá-lhes um trato exegético que fere frontalmente as perspectivas "bem-consolidadas" dos sistemas calvinista e arminiano, enquanto apresenta com clareza inequívoca uma percepção "mais equilibrada".

Uma pergunta pertinente e necessária a essa altura é: Há, de fato, um ponto de equilíbrio, como Geisler nos propõe, ou, tenta ele, vãmente, reconciliar o irreconciliável? Na Idade Média, Bernardo de Clairvaux enunciou magistralmente o embate nos seguintes termos: "Se o homem não é livre - não há o que salvar; se Deus não é soberano, então, Ele não tem com que salvar". Nem o gênio de Agostinho, nem o de Calvino ou mesmo, de Lutero, lograram apresentar melhor proposta. Enquanto Calvino e Armínio se posicionaram em extremos logicamente opostos, Bernardo de Clairvaux, antes da rusga secular, discerniu ambas as premissas como duas faces da mesma verdade. Explicá-la é uma outra história.

No âmbito eclesiástico a contenda e os ânimos de acirram sempre que alguém se atreve a tocar, ainda que de relance, nestas questões controversas. O crente não-teologizado, muitas  vezes, academicamente despreparado, coloca em xeque, nossos elaborados sistemas teológicos, em seus variados matizes. Exemplo disso é a objeção dos arminianos aos calvinistas: Se a eleição soberana de Deus e a expiação somente visam aos eleitos, então, Deus é, no mínimo, parcial, injusto, voluntarioso e caprichoso, na medida em que elege apenas alguns, abandonando a imensa maioria a sua própria sorte. Por sua vez, replicam, e com toda a razão, os calvinistas, afirmando que, uma vez mantidos os postulados arminianos, Deus de torna refém do "homem soberano", ou colocando em termos bem práticos - se o homem soberano não receber/aceitar Jesus em seu coração "Deus não pode?!" salvá-lo.

Em outros termos, foi dito alhures - os arminianos são calvinistas enquanto oram, e os calvinistas são arminianos enquanto pregam. Os fatos estão bem claros, a constatação imediata é a de que, conquanto estejam sendo tratadas verdades inquestionáveis, temos de ter a humildade de reconhecer, que não sabemos lidar com elas, convenientemente.

Ao declarar-se explicitamente um calvinista moderado, portanto opondo-se ao Hipercalvinismo e, ao Arminianismo, Geisler examina acuradamente as cinco teses do Hipercalvinismo, e tenta oferecer-lhe uma réplica adequada. Neste desideratum, avança até os mais respeitados simbolos de fé calvinistas, como sejam: os Cânones de Dort, a Confissão de Fé de Westminster, o Catecismo de Heidelberg e a Confissão Belga. O que fascina em Geisler é a sua paixão pela inerrância e infalibilidade da Bíblia em questões de fé.

Embora seus oponentes sejam figuras de proa da ortodoxia calvinista e reformada - respesteitadíssimas nos meios acadêmicos -, ele não se atemoriza, antes devassa as entranhas do hipercalvinismo e as expõe à luz do sol, às escâncaras, às avessas. E, mais ainda, ousa refutá-las, sempre à luz da boa exegese ortodoxa, visando estabelecer a verdade, custe o que custar, mesmo que isto faça crescer o rol de seus contendores.

A impressão que fica ao se examinar sua obra monumental é que, Geisler está quase que totalmente isento de preconceitos denominacionais, de dogmatismos, de apropriações falaciosas; antes o critério por ele adotado é o de submeter cada premissa, cada pressuposto, cada tese, ao crivo infalível da Escritura Sagrada. Ainda que muitos discordem de algumas ou de parte significativa de suas conclusões, o bom senso recomenda que se ouça, o que esse mestre notável tem a dizer sobre tema tão controverso, quanto fascinante.

Monergismo versus Sinergismo é outro debate fascinante e subjacente à doutrina da eleição que Geisler encara de frente, assim como a doutrina do Voluntarismo, tão ignorada em tantos debates. Ele  parece querer explorar até à exaustão (caso isto seja, de fato, possível) tão palpitante assunto. Igualmente, foca, ainda que de relance, o Determinismo e o Fatalismo.

Mais do que consolidar a forma de fé em que acredita, Geisler parece querer compartilhar de coração para coração, o resultado de seus labores acadêmicos. Suas digressões em vez de parecerem frias deduções acadêmicas, pulsam como o coração de um menino, embevecido com o presente que desembrulha, açodadamente. E melhor, dá-lhe forma impressa e compartilha-o com quantos queiram deliciar-se com seus belos e contundentes arrazoados.

O Arminianismo "extremado" foi, formalmente, condenado no Sínodo Calvinista de Dort (1618-1619) e, a partir daí, muitos arminianos foram banidos e perseguidos. Os cinco pontos do Hipercalvinismo visavam refutar a cada um dos cinco pontos do Remonstrance. Somente em 1795 é que houve a tolerância oficial do pensamento arminiano. Do ponto de vista eclesiástico o Arminianismo tem sido preservado até hoje. Uma versão modificada da posição arminiana foi sustentada por John Wesley (1703-1791), por Charles Wesley (1707-1788) através de sua hinologia e, por John William Fletcher (1729-1785). Subsequentemente passou para o Metodismo, e deste último ramificou-se para o Pentecostalismo, para o movimento Holiness (santidade) e para o movimento carismático.

Uma teologia heterodoxa tem emergido do velho Arminianismo "extremado", que se autointitula "teísmo do livre-arbítrio" ou a ideia da "abertura de Deus". Na verdade, esse movimento tem semelhanças com a "teologia do processo" e, é mais apropriadamente chamado novo teísmo ou neoteísmo". Os neoteístas tem levado o Arminianismo a um extremo perigoso. Sua nova ideia destoa do teísmo tradicional de Calvino e Armínio. Diversos proponentes desta forma adoecida de Arminianismo, incluindo Clark Pinnock, Richard Rice, John Sandres, William Hasker e David Basinger, colaboraram em um volume intitulado The openness  of God.

O neoteísmo tem exaltado o livre-arbítrio às custas da soberania divina. As consequências de se adotarem doutrinas heterodoxas como esta podem ser percebidas nas Igrejas Pentecostais, nas neo-pentecostais e carismáticas no Brasil e no mundo, nas quais o eixo da soberania se tem deslocado de Deus para o homem. O homem manda, determina, declara, faz confissão positiva e, resta à divindade tão-somente obedecer, submeter-se ao "voluntarismo" desse segmento cristão.

O eixo deixou de ser teocêntrico e passou a ser antropocêntrico - o homem redescobriu sua "divindade" e Deus ficou relegado à condição degradante de mero servo dos homens. A apostasia que impera em muitas Igrejas, e a estimativa de que cerca de 4 milhões de crentes sem-igreja não mais congregam, são amostras do que acontece, quando a falsa doutrina é acolhida, em detrimento da ortodoxa.

Não bastasse isso, negam abertamente a presciência que Deus tem dos eventos livres e/ou futuros, negam a imutabilidade e a eternidade de Deus e, principalmente, a sua soberania. 

Na avaliação que Geisler tece sobre os cinco ponto do calvinismo extremado, apenas o quinto ponto resiste - a perseverança dos santos, com as devidas ressalvas; os outros quatro são descartados e modificados em busca de um salutar equilíbrio bíblico. Por depravação total entendem os calvinistas extremados que houve destruição do bem, efeitos intensivos do pecado, nascido com necessidade de pecar e vontade humana destruída. O calvinista mais moderado entende que depravação é parcial que houve corrupção do bem, efeitos extensivos do pecado, nascido com propensão para pecar e, vontade humana diminuída.

Lutero, em coro com a posição calvinista extremada assim definiu livre-arbítrio: " O livre-arbítrio sem a graça de Deus não é livre de forma nenhuma, mas é prisioneiro permanente e escravo do mal, uma vez que não pode tornar-se em bem." Calvinistas, moderados como Geisler, reconhecem que o homem tem propensão - não necessidade - de pecar e, que a vontade humana foi diminuída - não destruída.
  
Relativamente à eleição incondicional, o calvinista moderado entende, conforme Geisler, que Deus não precisa cumprir nenhuma condição no processo de salvação, mas que, uma condição é imposta ao homem - a fé; para os extremados não há condições nenhumas, quer da parte de Deus, quer do homem.

Sobre a expiação limitada, Geisler conclui que ela o é, só no resultado (mas para todas as pessoas, em sua extensão); enquanto que, os extremados entendem que ela só alcança, efetivamente, os eleitos.

A graça irresistível dos extremados é vista pelos moderados como resistível; reconhecem os extremados que ela opera coercitivamente (contra a vontade do homem); já os moderados discernem o caráter persuasivo da graça, operando ela, de acordo com a vontade do homem.

Talvez mais polêmico que os quatro pontos anteriores seja o da perseverança dos santos. Enquanto os extremados postulam que nenhum dos eleitos morrerá em pecado; os moderados entendem que nenhum eleito se perderá, mesmo que morra em pecado.
  
No apêndice 2, Geisler atinge as raias da provocação, ao questionar se Calvino seria mesmo calvinista. Ele aponta para o 3º ponto do acróstico calvinista - a expiação limitada -, e convence-nos, de que a premissa foi corrompida por seus sucessores. Fica evidente e claro, que Calvino cria na expiação ilimitada, ou seja, Cristo morreu por todos e, não apenas pelos eleitos, como ficou consubstanciado nos Símbolos de Fé calvinistas. Em sua obra Institutas 3.1.1 - obra monumental que Geisler cita em favor de sua tese -, Calvino afirma: "Devemos, agora, ver de que modo nos tornamos possuidores das bênçãos que Deus concedeu ao seu Filho unigênito, não para uso particular, mas para enriquecer o pobre e o necessitado. E a primeira coisa em que devemos prestar atenção é que, enquanto estamos sem Cristo e separados dele, nada do que ele sofreu e fez pela salvação da raça humana é de mínimo benefício para nós".

Geisler convence, citando apropriadamente, outros comentários bíblicos e obras de Calvino, que explicitam o entendimento que o famoso reformador tinha a respeito dessa categoria soteriológica. Algo parecido deve ter ocorrido, também, com a transmissão dos postulados arminianos.

Geisler chama os opositores extremados a um ponto de equilíbrio que concilie, tanto quanto possível, as duas posições conflitantes e, aparentemente paradoxais. O autor chama-as de verdades gêmeas.
  
Outro testemunho determinante que Geisler evoca é o da patrística. Isto ele faz, objetivando estabelecer a liberdade de escolha humana, como pressuposto básico na interpretação da Bíblia, conforme o entendimento dos pais da Igreja. Nomes de peso tais como: Justino Mártir (100-165 d.C), Ireneu (130-200 d.C), Clemente de Alexandria (150-215 d.C), Tertuliano (155-225 d.C), Orígenes (185-254 d.C), Jerônimo (347-420 d.C), João Crisóstomo (347-430), e Agostinho - o jovem (354-430 d.C) entre outros, são pinçados da história, a fim de testemunharem sobre a livre agência do homem - o que refuta a tese calvinista de que a depravação total teria incapacitado,  radical e cabalmente, o homem em suas decisões volitivas.

Cita ainda, dois gigantes da teologia medieval que viveram antes da Reforma -   Anselmo (1033-1109 d.C) e Tomás de Aquino (1224-1274), em favor da teoria de que o homem pode escolher, livremente, aceitar ou rejeitar a salvação em Cristo, conforme exposta no Evangelho. As citações desses autores todos advogam que a volição humana jamais é coagida - antes opera livremente - seja para o bem, seja para o mal.

A obra é imprescindível a tantos quantos não tenham sido seduzidos pelos dogmatismos denominacionais ou por arraigados e míopes preconceitos teológicos. Para o cristão, para o teólogo e,  para os estudiosos em geral, a obra propõe digressão equilibrada, desapaixonada e inteligente dessa maravilhosa e edificante doutrina. Aprendemos que só Deus pode salvar, e que somente seres livres, moralmente imputáveis, podem ser salvos. Geisler não responde ao dilema nem desata os nós do paradoxo, antes, ousadamente, expõe as miopias, as restrições e os gargalos de ambos os sistemas.

Fui formado e educado no pensamento arminiano, esposado por minha denominação - a Assembleia de Deus. Esse sistema sempre me pareceu muito precário e, até  indefensável em algumas de suas premissas, pelo menos. Por outro lado, preserva a verdade da livre agência do homem - isto devo ao Arminianismo. Incomodado por minhas convicções calvinistas (seria um estranho no gueto arminiano?) transferi-me para a Igreja Batista. Ali, a princípio, fiquei deslumbrado com os postulados da Soberania divina, e fui me refinando, pouco a pouco, no conhecimento e aprofundamento dessa reconfortante doutrina.

Do ponto de vista eclesiológico há méritos e deméritos em ambos os sistemas. Tomemos, primeiramente, o arminianismo. O seu eixo antropocêntrico parece excluir a soberania de Deus. Um sistema soteriológico centrado no homem não pode se sustentar nas Escrituras. Outro perigo explícito é o inevitável alinhamento arminiano-sinergístico/ou semi-sinergístico/semi-pelagiano com a teologia católica oficial aquiniana-aristotélica.

Alguns questionamentos oportuníssimos que me incomodam muito, enquanto pentecostal, são: Em termos de sucessão doutrinária, somos herdeiros da nefasta teologia católica romana da salvação pelas obras? Os católicos têm a sua água benta - a nossa, é "orada"; eles rezam suas novenas, nós temos as campanhas, os jejuns; eles portam medalhas e escapulários; nós oramos pelas roupas, carteiras profissionais, fotos, etc.

Alguma semelhança com o paganismo católico? Somos neopagãos? A salvação dos católicos é amissível (perece, pode ser perdida); a nossa é diferente? Por que um número considerável de  pentecostais são nevropatas e neurastênicos? Por que tantos vivem aterrorizados com a possibilidade de perda da salvação? Por que tantos pentecostais demonstram desequilíbrio emocional e, amiúde se utilizam de psicoterapias inúteis? E de medicações psicotrópicas?  Em caso afirmativo, podemos ser classificados como seita católica?
   
A exigência de fé preveniente, anterior à regeneração, não nos remete ao repúdio das doutrinas esposadas pela Reforma? Pior, temos traído a Reforma?

E, o que dizer do poder discricionário exercido por nossos papas - senhores e donos absolutos de muitas de nossas denominações - ou seriam feudos eclesiásticos?

E o culto personalístico que lhes é oferecido na condição de quase-deuses, com status de intocáveis "ungidos do Senhor"? Podemos imaginar uma Assembleia de Deus sem Gunnar Vingren e Daniel Berg; a Igreja Pentecostal Deus é amor, sem David Miranda; a Comunidade Paz e Vida, sem Juanribe Pagliarim; a Universal do Reino de Deus, sem Edir Macedo; a Mundial do Reino de Deus, sem Waldemiro Santiago? Podemos?

Examinemos agora, o Calvinismo, do ponto de vista eclesiológico. Consideremos que sou um reformado, me refestelando numa deliciosa rede calvinista. Sei que Deus é soberano; sei também, que sou objeto de uma eterna salvação (inamissível, que não se pode perder). Estou certo de que o bom pastor não pode perder suas ovelhas; sei que nada me pode separar do amor de Deus, que está em Cristo. Estou convicto de que jamais "perecerei" e, de que ninguém, nem nada, me pode arrebatar das mãos do Pai, etc., etc.

A Salvação monergística paulino-agostiniana-calvinista, centrada em Deus, e não no homem, mas na soberania de Deus (incluindo-se aí a interação dela com a liberdade humana, contudo sem mecanismos coativos) me conduz a descansar no poder de Deus.
       
Na prática cristã, o perigo subjacente vislumbrado por detrás de uma visão deturpada da soberania de Deus, pode desembocar no antinomismo, no viver frouxo e desregrado, no abandono da oração e dos meios de graça, na preterição do evangelismo, e quiçá, no abandono das missões.

Enquanto o legalismo tem grassado nos meios pentecostais e carismáticos, os reformados e calvinistas têm descambado para a libertinagem - a horrível perversão da doutrina da graça.

Por outro lado, a história registra que os maiores missionários da Igreja: Hudson Taylor, Adoniram Judson, entre outros de nomeada, eram calvinistas ativos e, "inconformados" com a perdição dos pecadores.

E que dizer de Spurgeon que fazia trovejar a graça de Deus no Metropolitan Hall de Londres, de Jonathan Edwards com seu sermão - mundialmente conhecido - "um pecador, nas mãos de um Deus irado"? E  o que dizer de George Withefield - o trovão da Inglaterra, evangelista contemporâneo de Wesley? E de Jonh Bunyan - cuja obra-prima - o peregrino- continua evangelizando multidões?

Concluo que o calvinismo moderno deve estar muito doente, contudo, devo-lhe a minha convicção na gloriosa doutrina de que meu Salvador é fiel, e que, tendo em mim começado a sua boa obra, a completará até o dia de Jesus Cristo.

Acrescentaria à afirmação de Geisler que a soberania de Deus e a liberdade humana são verdades gêmeas, a percepção de que, sem contradição, são um parodoxo ininteligível a nossas mentes limitadas, ou seja, a revelação extrapola nosso tirocínio e capacidade cognitiva. Devemos aceitar, pela fé, ambas as verdades. Com temor e tremor, reconheço que devo utilizar-se de minha liberdade, não para pecar, mas para viver uma vida de santidade, visando à glória de Deus, crendo que estou monergisticamente salvo, porque minha salvação depende - daquilo que Cristo fez, e minha certeza de salvação - daquilo que Ele afirma em sua palavra. A Ele, somente, toda a glória, por todos os séculos. Recomendamos, pois, a obra e o autor - Geisler é uma vozes mais eloquentes e sua erudição ortodoxa, convincente e paradigmática. Ouçamo-lo, pois. 

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* Paulo Américo Lopes, é pastor da Assembléia de Deus ministério do belém, com uma passagem de seu ministério pastoral entre os Batistas.

texto resenhado:
Geisler, Norman. Eleitos, mas livres.  Editora Vida: São Paulo, 2005.


Tudo posso naquele que me fortalece (Fp. 4:13).

"Tudo posso naquele que me fortalece", ao contrário da tônica triunfalista empregada por diversos setores evangélicos, representa na verdade uma das maiores expressões de contentamento do Apóstolo Paulo.
Antes de Paulo ancorar esta expressão em sua carta, ele afirma ter aprendido o sofrimento, e tal expressão "posso todas as coisas", significa um contínuo aprendizado que o apóstolo alcançou contido de uma capacidade de suportar o sofrimento, tudo isto pela graça do Senhor Jesus Cristo em sua vida.
Talvez tenhamos que aprender a nos contentar um pouco mais com o que temos no mundo em que vivemos, relendo palavras como estas do apóstolo Paulo.

Alexandre da Silva Chaves

Alexandre da Silva Chaves