segunda-feira, 4 de junho de 2012

Exegese do Salmos 126: 1-6 (perícope)


Por: Alexandre da Silva Chaves




  Análise textual
 Texto e tradução

 Psalm 126:1-6 

  !AY=ci tb;yvi-ta, hw"hy>â bWvåB. tAlï[]M;ñh;( ryv 1i
 za'â hN"rIñ WnnEáAvl.W éWnyPi qAxf. aleçM'yIza'Û 2`~ymi(l.xoK. WnyyIh'÷
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 afenO÷ hN"+rIb. aAby"-aBo) [r;Z"h;-%v,m,( afenO éhkob'W Ÿ%leyE %Alh'« 6
`wyt'(Molua]


Tradução do salmos 126: 1-6

 Canto das subidas 



1 Ao retornar YHWH o cativo[1] de Sião, estávamos como os que sonham, 

2 então, foi enchida de riso nossa face e nossa língua de grito de júbilo. 
            Então disseram entre as nações: realizações grandes YHWH fez com estes. 

3 Realizações grandes YHWH fez conosco, estamos alegres. 

4 Traz de volta YHWH os nossos cativos, como as correntezas no Negueb. 

5 Os que semeiam em lágrimas, com gritos de júbilos colherão. 

6 Certamente o que caminha e chora, carrega a bolsa da semente; certamente 
voltará, em gritos de júbilos carregando os feixes dele. 

Crítica textual
O versículo 4 deste salmo é de grande discussão a partir da palavra hbv, Schokel, justifica a sua tradução “mudar a sorte” mantendo no versículo1 tyib:vi como aramaísmo e lendo tb;wvi com  btk}i  no versículo 4, alcançando a fórmula fixa e freqüente bWv tbWv – “mudar a sorte”[2].

Comparação de possibilidades de traduções

BJ – (Bíblia de Jerusalém)[3]
            V. 1 – Quando Yahweh fez voltar os exilados de Sião, ficamos como quem sonha:
TEB - (Ecumênica)[4]
            V. 1 – Na volta do Senhor com os que voltavam a Sião, pensávamos estar sonhando,
VULGATA (Latim)[5]
            V. 1 – Cum converteret Dominus captivitatem Sion facti sumus quasi somniantes,
ALMEIDA - (Almeida, Corrigida e Atualizada)[6].
            V. 1 – Quando o Senhor restaurou a sorte de Sião, ficamos como quem sonha,
 NVI - (Nova Versão Internacional)[7].
            V. 1 – Quando o Senhor trouxe os cativos de volta a Sião, foi como um sonho.


Análise literária

Gênero literário
O documento tem sido classificado como pertencendo à categoria  de cantos de ação de graças de Israel (Kraus, (?), p. 440). O próprio título deste salmo, “cantos de degraus ou de subidas”, delineia o próprio gênero que ele possui; e é a partir daí que ele aparenta rodear um tema  e desenvolve-lo repetindo e variando. “Eles parecem estar girando lentamente diante de nós, são peças de tempo moderado, apresentando-nos facetas semelhantes [...]”, ainda de acordo com Luís Alonso Schokel que afirma: “[...] não pretendem inculcar uma idéia, porque inculcar é a atividade retórica, e essa peça (salmo 126) é lírica. Busca-se penetrar a sua mensagem suavemente e apagar-se, deixando soar suas sugestões” (Schokel & Carniti, 1998, p. 1453). No salmo 126 recorda-se o desterro e celebra-se a repatriação de um povo. 
            Gerstenberger classifica o salmo 126 como lamento individual. “Nós podemos imaginar que o salmo fosse cantado nas adorações das estações, durante o período pós-exílico” (vl.1, p.14; vl.2, p. 343). Este documento foi incluído na coleção de cantos de peregrinações por causa de seus sentimentos espirituais expressivamente denso. Mowinckel nos apresenta outras possibilidades de leitura;  considera os salmos 85 e 126 como de oração, “podendo naturalmente ser interpretados como orações por paz e um ano feliz, pertencendo provavelmente ao festival da colheita e ano novo [...] especialmente o salmo 126” (Mowinckel, 1983, p. 191). É bem mais natural tomar a noção de semear e ceifar como referências para a vida real, e não meramente como uma metáfora para a “salvação” em geral, a esperança pela restauração (1983, p. 223).
É muito difícil um salmos ter em seu gênero caráter escatológico. Mas isso acontece em certos salmos, no festival da colheita e na festa dos tabernáculos, como os salmos 126 e 85, e em alguns salmos de lamentação e oração pela congregação, mais do que nos hinos de entronização propriamente. (Mowinckel, 1983, p. 191).
Desta forma observamos que a discussão se amplia ainda mais a partir da  proposta de Mowinckel,  a qual deixa aberta uma possível leitura do salmo 126 como uma oração com a possibilidade de absorver o caráter escatológico. No festival se poderia orar pedindo a YHWH que derrama-se as suas bênçãos  (escatológicas) sobre a terra daquele que chora enquanto semeia, a fim de que o seu nome (YHWH) seja glorificado na colheita. Gerstenberger ao contrário afirma ser lamento individual, refletindo-se o drama social que é vivido pelo seu povo; enquanto que para Lipinski o salmo 126 emparentado ao 137 é considerado como cantos de Sião, desenvolvendo a temática da presença e da proteção de YHWH, na guerra ou na paz.
Estrutura poética
Macroestrutura





vv.
Tradução
Terrier, p. 825.
(Allen, p. 172).
(Gerstenberger, V. II, p. 339)
1
Canto das subidas

1-3 – Se relaciona ao passado
I
1a – Canto de subida/endereço
I
Ao retornar YHWH o cativo de Sião, estávamos como os que             sonham,

1b-3 – Alegria pelo primeiro retorno
I
1b-3 – prece de libertação
II
2
então, foi enchida de riso nossa face e nossa língua de grito de júbilo.


3
grandes YHWH fez conosco, estamos alegres.

4
Traz de volta YHWH os nossos cativos, como as correntezas no             Negueb.

4-6 – Súplica pelo retorno total e nova prosperidade
II
4 – Um pedido em nome da comunidade
II
4 – pedido/petição
III
5
Os que semeiam em lágrimas, com gritos de júbilos colherão.
5-6 – Pode ser uma promessa profética
III
5-6 – canção do fazendeiro
IV
6
Certamente o que caminha e chora, carrega a bolsa da semente;             certamente

voltará, em gritos de júbilos carregando os feixes dele.

A primeira parte do salmo é reconhecida como endereço, tanto Terrier como Gerstenberger concordam nesta posição, somente Allen apresenta o endereço do salmo e sua primeira divisão deste esquema como sendo únicas. De acordo com Schokel o salmo 126 começa com subordinada e principal, de modo que contempla um momento temporal que pode ser mentalizado próximo ao compositor. Existe uma explosão de gozo indizível e uma alegria extraordinária ante um ocorrido de salvação perante um mal que é vívido ao poeta. Aqueles que não servem a YHWH reconhecem a sua ação a favor de seu povo (corroboram os textos de Sl. 98: 2; Is. 52: 1; Sl. 42: 10-12; Sl. 102: 16). Existe um pedido, que é reconhecido por todos os autores do esquema acima, que pode ser entendido como uma súplica por aqueles que permaneceram na desgraça, são aqueles que não alcançaram os degraus do templo, “Traz de volta YHWH os nossos cativos”. E por fim todos os três autores dos esquemas de estrutura acima, compreendem de modo distinto a última parte deste salmos. Terrier interpreta como uma promessa de prosperidade, enquanto que Allen interpreta como uma promessa profética, e Gerstenberger compreende como uma canção de um fazendeiro. Para comparar e explicar outra possibilidade, Schokel e Carniti trabalham com a idéia de duas imagens, tanto nas torrentes do Neguev ( bgN) quanto na figura do agricultor.
Num território de paramos e desertos, como o Neguev, uma chuva breve e intensa pode encher os leitos de correntes torrenciais; a água pode fertilizar zonas desérticas, como descreve Jó 38. ( Schokel & Carniti, 1998, p. 1493-1494).
Entendendo, que do mesmo modo, se encherão os leitos de Judá com o número dos repatriados, do cativeiro.
A segunda imagem que é a da fadiga do semear se contrapõe ao gozo da colheita. O semear exigia um sacrifício de “se tirar o pão da boca para obter semente” (Schokel & Carnit, 1998, p.1494);  o salmo sobrepõe à imagem trágica do desterro, a angústia dos trabalhadores rurais; o texto não fala do suor que gera o trabalho pesado do campo, mas sim estranhamente de lágrimas ao semear. Mais uma vez Schokel afirma que os verbos “ir” e “voltar” apontam nessa direção de uma contraposição de duas imagens distintas na vida de um único povo.
Afirma Schokel & Carniti:
A imagem é expressiva no seio da cultura agrária elementar e recobre emotivamente a recordação triste desde o presente feliz. Aquela marcha penosa não foi estéril; foi um semear custoso para uma colheita tanto mais gozosa e abundante quanto mais diferida. Mas símbolo não se esgota aí: é zr´ é semente vegetal e também estirpe humana; um significado que exploram autores diversos, por exemplo: Jr. 31: 27; Os. 2: 25; Lv. 12: 2; Is. 65: 9. (1998, p. 1494).
Ainda o mesmo autor considera o símbolo aberto a ser interpretado, de modo a expressar qualquer obra que se empreende e se leva a termo, que se realiza com fadiga e se desfruta com gozo.


Filologia
Retornar (bWv)
bWv ocorre 1050 vezes no Antigo Testamento. Na forma Qal, acontece 206 vezes nos profetas e 113 vezes no Pentateuco. Entre os profetas essa forma é dividida aparecendo 78 vezes em Jeremias; 19 vezes em Oséias; 14 vezes em Zacarias; 15 vezes em Daniel; 37 vezes Ezequiel; 32 vezes em Isaias; 6 vezes em Amós; 5 vezes em Malaquias.
             No Pentateuco aparece 41 vezes em Gênesis; 18 vezes no Êxodo; 12 vezes no Levítico; 21 vezes em Números e 21 vezes em Deuteronômio.
Nos escritos Sapienciais é menos freqüente, sendo 19 vezes em Jó; 8 vezes em Provérbios; 10 vezes em Eclesiastes; 14 vezes em Siraque. As 41 vezes que aparece em Salmos não revelam nenhuma concentração óbvia. O uso no Qal é dominado pelo movimento físico de virar em si mesmo, retornar.
O sentido Teológico de bWv em Qal
Uma pessoa pode retornar a Deus, virar-se contra o mal, virar-se contra Deus, abandonar o pacto, Deus pode se virar para Israel, retornar a Israel ou retirar-se de Israel. O verbo bWv é usado na concretização, na petição (voltar) no argumento por restauração.
Cativo (hbv)
Em conexão com redimir – As referências ao cativeiro de judeus e a sua escravidão invocam uma questão legal, de acordo com o uso do verbo  lag (Gâl), 'redimir' em conexão com a razão da liberação do cativeiro (Lv. 25:47-54; Is. 49:24ss;Jr. 50:51; Sl. 106).
Esdras e Neemias – Em alguns textos tardios palavras como: captura e cativeiro, quase tornam-se termo técnicos para o exílio Babilônico e são usadas quase sem conotação teológica.
Júbilo (hNr)
O seu uso em conexão com a explosão de alegria, pode ser entendido no sentido de ‘alegria, exultação’; e está concentrado nos Salmos (aparecendo 34 vezes) e no livro de Isaias. O seu uso aparece também em Levítico, Deuteronômio,  1 e 2 Crônicas e Jó, sendo 4 vezes em cada livro; em Provérbios aparece 2 vezes; em Jeremias aparece 3 vezes; Sofonias 2 vezes e Zacarias 2 vezes.
Os tempos verbais no Salmos 126 tem sido assunto de muita discussão, mas o uso de Jubilar (hNr) nos versículos 5 e 6, e também no 2 neste Salmo (o qual também tem afinidades com deutero Isaias), pode ser claramente incluído no aspecto de antecipação de um futuro salvífico. Confiante nesta salvação antecipada o salmista já pode alegrar-se.
Neguev (bgN)
O uso simbólico de bgN, encontrado mais freqüentemente nos profetas, está conectado ao fato de ser uma região árida e rude no sul. Isaias apresentou o Neguev como uma terra temerosa, descrevendo-a como uma “terra de horror” e simbolizando a origem de violentas tempestades. Tão desprovido de água era o Neguev que a rara chuva era usada como uma figura de descanso por parte de YHWH, conf. VanGemeren, W. A., (126:4).
Semente ([r;Z)
De acordo com Ageu 2:19 a reconstrução do tempo trará fertilidade,e  a semente no celeiro não diminuirá cf. Sl. 126:6; a expressão não ocorre em Joel 4:18 e Levítico 26: 5 que contém promessas similares.
O uso metafórico do verbo – Um grupo de passagem nas quais o verbo é usado metafóricamente, falam do estilo da literatura sapiencial usando os termos semear e colher, para descrever a conexão entre uma ação  e suas conseqüencias, quase sempre com más conseqüencias em vista. (Os. 8:7, 10:12; Jr. 4:3, 31:27; Jó. 4:8; Pv. 11:18, 22: 8; Gl. 6:7). Esse grupo também inclui a promessa no salmo 126:5. O ritual de chorar no tempo da semeadura pode ser atestado no Sl. 126:5 e Os. 8:1-4, 7.


Análise contextual

Autoria
Os cantos de subida foram aparentemente coletados juntos, não porque todos pertencessem ao mesmo gênero de hinologia, mas porque eles eram usados pelos peregrinos da diáspora durante o período persa. Os peregrinos cantaram enquanto marchavam para o novo santuário de YHWH, no monte Sião. (Terrier, 2003, p. 825). Portanto improvável a autoria davídica no salmo 126, por ser sua composição de data posterior ao reinado davídico, e imprecisa a definição de sua autoria.
Datação
A dispersão judaica ocidental é atestada no período persa pelos papiros de Elefantina (tábua 1:5d) (Gottwald,1988, p.410). Os documentos estão datados durante a maior parte do século V, mas os de máximo interesse se concentram no período de 419-399 a.C. Celebrava-se uma forma de páscoa e um templo de Yahu (Iaweh) fora construído.
Terrier fala sobre o retorno da Mesopotâmia quando se refere ao salmo 126 (2003, p. 825); já Dahood apud Terrier, considera que o texto seja pré-exílico; enquanto que para Beyerlin o salmo é escrito durante o exílio de Judá, interpretando a restauração das fortunas com a futura restauração da comunidade de Judá, após sua dissolução em 587 a.C. (2003, p. 172-173).
Gerstenberger  considera o texto pós-exílico (1991, vl.2 p. 332) e podemos concordar que esta afirmação do autor seja a mais consistente, uma vez que nos favorece as implicações sobre a motivação do texto pós-exílico, ou seja, a restauração dos cativos de Sião. Outro fator preponderante era a celebração da colheita ou do festival de outono, como uma celebração judaica deste período,  realizada a partir da instituição do rabinato, a qual é posterior ao exílio.
De acordo com Avril e Maison NNeuve, ‘Tu Bi-Shevat’, no livro ‘Festas Judaicas’, é o ano novo das árvores, isto é, o início do ano para os frutos da terra. Saturado de água, após a estação das chuvas que praticamente cessaram, o solo vai permitir que as árvores plantadas criem raízes e produzam frutos. Destes frutos amadurecidos após essa data, se deverá tirar o dízimo (Avril e Maison NNeuve, 1997 , p.144).
O ‘Tu Bi-Shevat’ é uma festa de instituição rabínica, de modo que seja instituída em período pós-exílico. Como as demais festas de instituição rabínica, esta festa agrária se dá em um dia normal de trabalho.
Certas comunidades serfarditas, originárias das margens do mediterrâneo, fazem nessa ocasião uma refeição ritual, seder, nos moldes ‘Seder-Pesah’. Depois de comer os frutos recitam uma ação de graças ( Avril e Maison Nneuve, 1997 , p.145). Recitam em seguida, os salmos 104 (ação de graças pela criação) e os quinze salmos de subidas: Sl. 120-134 (Avril e Maison NNeuve, 1997, p. 145).
As expressões destes salmos, de acordo com Luís Alonso Schokel e Cecília Carniti, “misturam algumas expressões novas com formas arcaizantes. A época é indubitavelmente pós-exílica”, alguns dos salmos do bloco dos degraus, podem ser elaboração antiga e ter sofrido reformulações e novas elaborações. Como bloco constituem coleção tardia, uma mostra exímia de poesia lírica judaica, daqueles que foram repatriados (1998, p. 1452-1453).

Sitz im Leben

De acordo com Allen, a aplicação cúltica dos salmos dificilmente pode ser definida com precisão. Observemos:
As referências ao fenômeno natural nos versículos 4b-6 podem ser tomados como indicações que o festival de outono era a ocasião cúltica do salmo, o qual poderia constituir uma oração por fertilidade e benção para o próximo ano (Allen, 1983 p. 172).
Beyerlin apud Allen, com razão condena uma aplicação precisa, observando a natureza metafórica das referências de fertilidade e conclui simplesmente que o salmo era recitado no culto da comunidade (Allen, 1983, p. 172).

Mowinckel explica que, no festival, YHWH era adorado como rei e diversos sentimentos eram compartilhados pela comunidade, tais como: gratidão, medo, respeito, alegria etc.
A gratidão de vários salmos por YHWH se divide em tipos;  1 – ação de graças pelas dádivas do ano passado, (salmos 65); 2 – a contemplação admirada do trabalho da criação (salmos 65: 7-9); 3 – uma  retrospectiva de gratidão pelas muitas vezes que no passado YHWH “mudou o destino de Israel” (salmos 85;126); 4 – e salvou o seu povo de inimigos de força superior (salmos 124) (Mowinckel, 1983, p. 185).


Extração da mensagem

O salmos possui uma combinação admirável de piedade profunda sem abandonar a simplicidade, possuindo nobreza e ingenuidade da forma. Expressa completa confiança em suas palavras, durante toda a sua composição expressa esperança, de forma que a fé ganha familiaridade e força como fonte de piedade. O salmo revela a expectativa de salvação que vive a comunidade em tempos de dificuldades, e pode ser melhor compreendido a partir do festival de outono que celebrava a chegada de um tempo de mudanças para melhor.
De acordo com  Artur Weiser; “[...] a grande transformação das coisas está posta nas mãos de Deus. Por isso toda a sua esperança repousa em Deus [...]” (1994, p. 593). Weiser usa a tradução “mudar uma mudança” em sua exegese, e explica que o uso desta fórmula se constitui para indicar “a realização salvífica escatológico-cultual”, e que a partir disto, paira o pensamento da culpabilidade, em que o homem caiu perante Deus e de que, em conseqüência, somente Deus o pode libertar mediante novo ato de sua graça. E afirma “’como quem sonha’ ficam os que experimentam realmente esse milagre de Deus” (1994, p. 593).
Os pagãos se calam de admiração diante deste ato de YHWH e reconhecem os seus atos sobre o seu povo. O seu povo exulta 'face e língua', junto a confissão de fé das outras nações, e se alegram com o futuro  que YHWH detém em suas mãos.
A confiança em YHWH de acordo com Artur Weiser, faz com que seu povo realize uma prece que se apresenta como um sentimento que produza uma metamorfose da circunstância; assim como as regiões secas e áridas do sul (Neguev), onde rios e águas em abundância são condições impossíveis, porém quando estas ocorrem, suprem as necessidades pecuária e agropecuária da região, assim a prece do samlmista faz o apelo: 'Traz de volta os nossos cativos'.
A ocasião da metáfora é de uma celebração festiva, a qual celebrava entre outras coisas, a colheita de outono. A metáfora passa a ser revestida por outra metáfora proverbial da semeadura, plantando com suor e lágrimas em direção da alegria na colheita. A figura é, naturalmente, perpassada pela interpretação com referência à situação aflitiva da época em que foi produzida. De acordo com Weiser, no processo de sofrimento e morte o salmo vê não a alusão à glória futura de nova vida, mas também, como no caso do grão de trigo que lança à terra, nele já está em ação aquela força divina que da morte cria nova vida (cf. Ez. 37).
Neste caso em última análise é a fé  no admirável poder da vida que YHWH detém, que transfigura os sofrimentos do tempo e os manifesta como caminho divinamente querido, que unicamente leva da noite escura ao clarão do dia. A semelhante fé revela-se na misteriosa lei divina: “semear com lágrimas e colher com alegria”, é a passagem da necessária fase do sofrimento à alegria pela glória de YHWH.
O salmo 126 fortalece a fé em YHWH, em sentimento de identidade e em determinação de tolerar ou perseverar no trabalho duro para uma libertação final do seu povo.

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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

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Dicionários
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Artigos
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[1]              Algumas traduções utilizam sorte ao invés de cativo. Observar a crítica textual desta exegese.
[2]              Schokel & Carniti. Salmos: tradução, introdução e comentário. São Paulo: Paulus, 1998. p. 1491-1492.
[3]          Bíblia. Português. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 1995.
[4]          Bíblia. Português. Bíblia Sagrada. Tradução Ecumênica. São Paulo: Edições Loyola, 1995.
[5]          Traducida de la vulgata latina teniendo a la vista los textos originales. Madrid: 1961.

[6]          BÍBLIA sagrada: antigo e novo testamento. 2. ed. São Paulo: Sociedade bíblica do Brasil, 1995.
[7]          BÍBLIA sagrada: nova versão internacional. São Paulo: Sociedade bíblica internacional, 2003.

Tudo posso naquele que me fortalece (Fp. 4:13).

"Tudo posso naquele que me fortalece", ao contrário da tônica triunfalista empregada por diversos setores evangélicos, representa na verdade uma das maiores expressões de contentamento do Apóstolo Paulo.
Antes de Paulo ancorar esta expressão em sua carta, ele afirma ter aprendido o sofrimento, e tal expressão "posso todas as coisas", significa um contínuo aprendizado que o apóstolo alcançou contido de uma capacidade de suportar o sofrimento, tudo isto pela graça do Senhor Jesus Cristo em sua vida.
Talvez tenhamos que aprender a nos contentar um pouco mais com o que temos no mundo em que vivemos, relendo palavras como estas do apóstolo Paulo.

Alexandre da Silva Chaves

Alexandre da Silva Chaves

Solidariedade é um dom de Jesus Cristo à Igreja: Pratique!!

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