terça-feira, 31 de julho de 2012

QUEM SOU EU?



Primeiramente, gostaria de compartilhar com todos que a pesquisa que realizei para obter o grau de mestre em ciências, me proporcionou a produção do livro, que nasceu de uma experiência religiosa
Portanto a pesquisa é um pouco daquilo  que de fato “ sou” [i]...

De modo que achei interessante terminar um evento de lançamento com uma fala que encerre exatamente com a pergunta sobre quem é autor, ou seja, que tente responder “quem sou eu?”

Sei que sou formado de minha (s) experiência (s), posto isto a fim de que se conduza sem precipitações as conclusões sobre o "porquê" desta pesquisa. Uma pesquisa que aliás, já foi bem explorada pelas resenhas do Teólogo Paulo Américo e também pelo Teólogo e Antropólogo Edílson Teles.

Comecemos então com a leitura de um poema dos mais belos que já li, produzido por um pastor e teólogo de dentro de uma cela de prisão, que busca retratar um pedaço daquilo que sou:

O título do Poema[ii] é:
Quem sou Eu?

Quem sou eu? Seguidamente me dizem
que deixo a minha cela
sereno, alegre e firme,
qual dono que sai do seu castelo.

Quem sou eu? Seguidamente me dizem
que falo com os que me guardam
livre, amável e com clareza,
como se fosse eu a mandar.

Quem sou eu? Também em dizem
que suporto os dias  do infortúnio
impassível, sorridente e altivo,
como alguém acostumado a vencer.

Sou mesmo o que os outros dizem ao meu respeito?
Ou sou apenas o que eu sei a respeito de mim mesmo?
Inquieto, saudoso, doente, como um passáro na gaiola,
respirando com dificuldade, como se me apertassem a garganta,
faminto de cores, de flores, do canto dos passáros,
sedento de palavras boas, de proximidade humana,
tremendo de ira por causa da arbitrariedade e ofensa mesquinha,
irriquieto à espera de grandes coisas,
em angústia impotente pela sorte de amigos distantes,
cansado e vazio até para orar, para pensar, para criar,
desanimado e pronto para me despedir de tudo?

Quem sou eu? Este ou aquele?
Sou hoje este e amanhã um outro?
Sou ambos ao mesmo tempo? Diante das pessoas um hipócrita?

E diante de mim mesmo um covarde queixoso e desprezível?
Ou aquilo que ainda há em mim será como um exército derrotado,
que foge desordenado à vista da vitória já obtida?

Quem sou eu? O solitário a perguntar zomba de mim.
Quem quer que eu seja, ó Deus, tu me conheces.
Sou teu.
(Dietrich Bonhoeffer)


... minhas primeiras tentativas de fazer missões, produziram em mim sérios questionamentos, os quais produziram juntos com eles crises que me conduziram mais tarde às questões teológicas, filosóficas e sociológicas...

 Perguntava pra mim mesmo: "por que a igreja não se preocupa com as pessoas pobres e miseráveis destas regiões distantes de nossa própria cidade?  (À época 'Pau - Arcado', 'Mato Dentro', e 'regiões rurais adjacentes à Francisco Morato e Franco da Rocha')...

Os questionamentos teológicos mais sérios me conduziram ao seminário,
…pois para mim era muito sério tentar entender como eu, ou a igreja poderia afirmar que amava, enquanto gente tão próxima de mim estavam passando fome, frio e dificuldades das quais eu e a igreja não nos engajávamos para mudá-las, pensava que o seminário me ajudasse a responder...

Os questionamentos filosóficos posteriormente me conduziram a Universidade. E questões como:
...Como relacionar Igreja e Religião? Se eram ou não a mesma coisas? Onde a fé se inicia no ser-humano? Onde estão os limites da Igreja? Ou seja, onde somos igreja? No templo? em casa? O templo é expressão da Igreja? Jesus criou uma igreja um tipo de organização social?...e acreditava que a universidade me deixaria pronto para responder essas indagações...

Os questionamentos sociológicos e antropológicos me atormentaram:
Como a igreja se inseri em uma sociedade da qual não possui a sua identidade? Ou seja, como nasce uma igreja num contexto social? Como ela se desenvolve? Como o homem se insere numa cultura (hábitos, alimentação, comportamentos etc..) da qual nunca fez parte e pretende conduzi-lo a transformações?... pensei que a sociologia e a antropologia, por intermédio da pós-graduação, pudessem me informar e formar sobre isto...

Todas estas questões me fizeram passar pelas mais diversas leituras imagináveis:
Desde a teologia patrística, principalmente pela leitura platônica do mundo via Santo Agostinho, da qual me considero afetado em minha visão do homem e do mundo...,

À Lutero[iii] minha dívida em me ajudar com sua definição acerca da igreja:

(…) Igreja é a comunhão dos santos (...)
(Martinho Lutero)

E, a Calvino[iv], que a aprimora, afirmando acerca da igreja que:

são homens (seres humanos) que professam adorar a um só Deus e Cristo (...) 
(João Calvino)

À ambos devo certa pitada de radicalismo de querer sempre questionar as coisas que são faladas acerca de Deus, submetendo tudo a constantes releituras e revisões (como um asno teimoso), tendo sempre por molde as Escrituras (...), procurando sempre me certificar de que, se o que estou afirmando, o que afirmo possa estar eivado por vícios de leituras tão equivocados que possam colocar outros em risco por causa do resultado de minha leitura.

Também devo muito a Friedrich Schleiermacher[v], sei que uns o detestam e outros o reverenciam.. contudo se torna inegável a realidade de que os "sentimentos" expressam nossas finitudes..., bem como  uma  certa 'consciência de dependência em relação ao Todo-poderoso', ou seja, sentimento de que sou uma finita criatura e de que, portanto, existe um criador, um Ser infinito e incontido.
Um criador que se impõem sobre mim de maneira infinitamente maior do que eu, que me contém Nele, e que me abriga Nele, e que, contudo jamais possa ser contido ou abrigado por alguém ou qualquer coisa.

Essa ideia me dá constantemente uma sensação de arrepio e de terror … percebo quase sempre diante de mim o totalmente outro, o que somente posso reconhecê-lo sem sentir medo ou terror quando me aproxima da Cruz, de Cristo, do Deus-humano.

Do espírito angustiado de Kierkegaard,[vi] posso afirmar que, sem qualquer dúvida pude ser afetado:

A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente.
(Sören Aabye Kierkegaard)

Não poderia esquecer do teólogo e pastor que mais marcou a minha caminhada: o querido Dietrich Bonhoeffer, [vii] o qual já citei aqui um de seus poemas, contudo, é sua definição de igreja que passa a delinear uma teologia da igreja em meu pensamento:

'...a igreja somente teria sentido de existir, se esta existir para o outro(…), Ela não olha apenas para si, mas está lá onde há sofrimento, onde ela é necessária' (Bonhoeffer).


À Marx, Durkheim e Weber ... devo, independente de suas divergentes posições,  a habilidade de sempre estar atento as coisas como elas se apresentam  à experiência humana..

E, mais recentemente, à antropologia performática de Victor Turner, [viii] que me fez perceber que as coisas que se apresentam, nem sempre são o que apresentam ser, mas que às vezes são pura performance de uma realidade ocultada em nossos atos, quase sempre representadas inconscientemente, e que promovem, escondem ou submetem a vida e seus valores a realidade da existência  por meio do drama social representado.

Sem dúvida, devo aprender muito mais ainda em minha caminhada, a fim de que ainda consiga dizer pra vocês quem sou eu.

Por essa razão convido todos a ler e a comentar o meu trabalho, a fim de que possa conhecer um pouco do pensamento do autor e de ajudá-lo a continuar se construindo!

Sou um ser inacabado..., numa certa liminaridade, mas em constante construção por meu Deus...



[i]   Discurso em ocasião do agradecimento aos presentes pelo evento de lançamento de meu livro “Do Sacerdote ao Profeta: presença pentecostal numa sociedade de transição rural-urbana. Reflexão: São Paulo, 2012”,  no “Buffet Bugarim, na rua Olavo Bilac, nº 18 – Francisco Morato-SP”.
[ii] MILSTEIN. Werner. Dietrich Bonhoeffer: vida e pensamento. São Leopoldo: Sinodal, 2006.
[iii] LUTERO, Martim. Como reconhecer a igreja. São Leopoldo: Sinodal, 1539.
[iv] GUIMARAES, Lucas. O coração a Deus: síntese de espiritualidade de João Calvino. São Paulo: Ixtlan, 2012.
[v] SCHLEIERMACHER, Friedrich. Sobre a religião. São Paulo: Novo Século, 2000.
[vi] KIERKEGAARD, Sören. O banquete in vino veritas. [s/l]:Guimaraes, 1989.
[vii] BONHOEFFER. Dietrich. Discipulado. São Leopoldo, Sinodal, 2008.
[viii] TURNER, Victor. Dramas, campos e metáforas. Rio de Janeiro: EdUFF, 2005.

Tudo posso naquele que me fortalece (Fp. 4:13).

"Tudo posso naquele que me fortalece", ao contrário da tônica triunfalista empregada por diversos setores evangélicos, representa na verdade uma das maiores expressões de contentamento do Apóstolo Paulo.
Antes de Paulo ancorar esta expressão em sua carta, ele afirma ter aprendido o sofrimento, e tal expressão "posso todas as coisas", significa um contínuo aprendizado que o apóstolo alcançou contido de uma capacidade de suportar o sofrimento, tudo isto pela graça do Senhor Jesus Cristo em sua vida.
Talvez tenhamos que aprender a nos contentar um pouco mais com o que temos no mundo em que vivemos, relendo palavras como estas do apóstolo Paulo.

Alexandre da Silva Chaves

Alexandre da Silva Chaves