sábado, 29 de dezembro de 2012

Zygmunt Bauman: uma leitura!



Aproveitei um pequeno período de férias que tirei neste final de ano, para poder colocar algumas leituras em dia. Deste modo pude revisitar a minha pequena biblioteca e ler obras que estavam na fila á algum tempo, tais como o filósofo alemão Ernst Cassirer, o sociólogo francês Marcel Mauss, o teólogo suiço-germano Karl Barth e o teólogo brasileiro Julio Zabatiero

Contudo, quem mais me despertou os sentidos, foi a leitura de um presente de um amigo, um texto de um sociólogo polonês radicado na saxonia, fugidio da 2ª grande guerra do século XIX, o autor chama-se Zygmunt Bauman. 

O texto que tanto me encantou não foi o seu mais famoso, nem o seu mais popular, nem talvez o mais denso. Mas ele simplesmente foi encantador, objetivo e profundo, sem perder o fulgor teórico, nem tampouco sua intelectualidade, contudo em linguagem leve, pude me deliciar em seu ensaio chamado "Em busca da política".

Neste texto, como é característica do autor, tive a oportunidade de revisitar os problemas da passagem do mundo moderno para um novo moderno mundo. A mudança que faço relevo parece sutil, mas é proposital, faz todo o sentido no trabalho do polaco-saxão. Alguns chamariam  essa preocupação do autor de a compreensão do mundo "pós-moderno", "hiper-moderno", "altamente-moderno", "moderno tardio", enfim, mas que Bauman prefere chamar pela metáfora química de líquido. "A modernidade líquida".

A modernidade líquida é o tempo das incertezas. Neste período da modernidade, tudo que antes era considerado sólido torna-se líquido, escorregadio e passageiro; sejam as relações humanas, as instituições ou seus valores. Nada mais vive como permanente e sólido, não existe mais o felizes para sempre do "once up on a time" (era uma vez). 

Nesta modernidade, o homem é despertado à enxergar que o mundo fixo e sólido, agora se desmanchou, e que começa a se desfazer diante de seus olhos. Os valores da ciência tornam-se paradigmáticos, a verdade relativa, as instituições, inclusive a política perdem sua plausibilidade e o homem passa a ter seus sentido e vida vistos como transitórios. Neste instante inclusive a religião, seu principal porto-seguro diante do caos da vida, sucumbe ante a lógica de mercado. A religião na modernidade torna-se aquilo que a demanda necessita, moldando-se para isto a necessidades do mercado, atendendo a lei da oferta e da procura, ofertando ao fiel aquilo que necessita, atendendo ao que a demanda busca.

Neste momento da modernidade, assistimos mais a comerciais de televisão em um ano, do que víamos comerciais e peças publicitárias em toda a uma vida do século passado. Vivemos numa sociedade que é alimentada por "Talk Shows e Reality Shows" e estes passam a ser vistos como a antiga "Ágora" da Grécia  onde adaptados a  modernidade, parcela significativa da sociedade enxerga nestes espaços a própria representação de sua causa (Ágora = um espaço público, onde a Eclesia (povo reunido) discutem  problemas do oiko (privado/ pertencente a casa). 

Neste mundo moderno as coisas que eram próprias da vida privada, passam a ocupar a esfera pública. Isso transforma questões da intimidade (privada), em questões de todos, inclusive o autor utiliza uma narrativa histórica onde uma senhora francesa assume em frente as câmaras de TV, que durante toda a sua vida  casada, nunca teve um orgasmo com o seu marido, pois ele sofria de ejaculação precoce.

Este tipo de relato jamais seria tratado assim num mundo sólido, onde as coisas eram tratadas com certezas, as soluções eram firmes e os valores fixos, em outro tempo essa pessoa procuraria um padre para confessar e se orientar, um pastor para aconselhar ou um médico para se tratar, mas no mundo moderno onde a vida privada vira Talk Show, um microfone é conveniente para vomitar tudo publicamente e com isto se vingar do sofrimento imposto pelo silêncio e vazio de uma vida particular, participando ao mundo aquilo que aflige-o particularmente. Isto é algo moderno.

Neste instante, obtivemos o que Bauman denomina de a passagem da sociedade industrial para a sociedade do consumo. O instante do processo em que vivemos é exatamente o do momento da passagem deste modo de conceber o mundo para o outro modo, ou seja, não completamente imbuído nos valores da industrialização, mas também não totalmente separado dele, assim como ao mesmo tempo mergulhados numa nova lógica de sociedade e mundo que é agora regida por poderes extraterritoriais e supra-locais  denominados de mercado e consumo.

Neste espaço onde se desenrola o mundo das coisas somos tentados a não pensar, pois o tempo que cruza o espaço que recebemos neste mundo, ou é para produzir ou para consumir. É exatamente quando estamos num processo de transição como este que se torna difícil encontrar outro tipo de solução estável, uma espécie de acordo de convivência humana. Será preciso pensar, contudo pensar será artigo de luxo; neste momento Bauman nos provoca mais uma vez, com citações que vale a pena repeti-las sem parafrasear:

"O problema com a nossa civilização é que ela parou de se questionar"
(Cornelius Castoriadis)

"Evitar fazer perguntas, questionar,  é a pior resposta de todas"
(Zygmunt Bauman)

É nesta confusão em que o mundo, as coisas e os homens estão mergulhados, que a política passa a ser pensada. É de onde questionamos qual o seu valor? sua função? seu papel? e de maneira ainda mais provocante, qual a sua possibilidade no mundo líquido moderno?

O campo de atuação da política deveria ser o Estado, mas para nosso autor, no mundo contemporâneo o Estado torna-se cada vez mais fraco, perdendo pouco a pouco o seu poder. O Estado se enfraquece  oferecendo cada vez menos serviços aos seus indivíduos, o resultado óbvio é que as pessoas acreditam cada vez menos no Estado. O poder passa a ser cooptado por forças externas ao próprio Estado, sendo forças que se apresentam como forças extraterritoriais.

 Enquanto o Estado se revela forte pela criação da cidadania e da nacionalidade, por seu caráter e controle territorial e domínio geográfico; o poder que antes lhe pertencia perde a cidadania e a nacionalidade, pertencendo cada vez mais a mãos de não se sabe quem de um mundo cada vez mais globalizado.

O Estado para tomar suas decisões passa agora a considerar questões multilaterais, pois a cada decisão tomada unilateralmente pelo Estado pode vir a afetar diretamente outras pessoas de outros locais, refletindo as consequências sobre si mesmo. O poder agora lhe escapou das mãos, ele se encontra nas mãos do mercado, que é cada vez mais invisível e onipresente.

A democracia é artigo importante da agenda política e cada vez mais adquire diferentes formas em seu desenvolvimento histórico, basta pensar que para Aristóteles a democracia tinha outro sentido, e não o caráter atual sob o qual ela se assenta.

Para salvar a democracia no mundo atual do consumo, talvez seja necessário pensar a criação de uma "democracia global". Democracia que ultrapasse os limites da nacionalidade, de modo que isto já começa a ser delineado pela formação de blocos econômicos que diminuem o poder político local, delegando-o a conglomerados como a União Européia, o Mercosul, a Unasul, o Nafta etc. As políticas locais tornam-se cada vez mais subservientes aos contratos extraterritoriais, indo de encontro aos desejos paroquianos de cidadãos locais.

Baumam nos afirma que estamos sob um  interregno, isto significa que as antigas formas de agir não funcionam mais, mas novas maneiras ainda não foram inventadas. 

Nesta nova sociedade moderna, hipotecamos o futuro. A sociedade industrial nos ensinava a poupar para garantir o futuro. A nova sociedade do consumo não nos deixa esperar para comprar, ela nos oferece o cartão de crédito, e com isso criamos uma crise, o nosso futuro encontra-se hipotecado. 

Neste instante as instituições criam a medida da austeridade como forma de controle político, estatal, mas apenas como mitigação da crise, não como uma solução definitiva, pois não existe solução fácil, de modo que evitar com que as pessoas comprem é pior do que deixá-las se endividar, imaginemos o quanto aumentaríamos a pobreza, se o mundo parasse de produzir e de comprar. Ainda não há uma resposta a crise do endividamento pelo consumo.

O grande problema para a política do mundo moderno será o de tentar equacionar a possibilidade de liberdade humana e de sua segurança. Estes dois temas ocuparão a agenda política do mundo moderno neste século. Quanto maior a liberdade, menor será a segurança. Quanto maior for a segurança, menor será a liberdade do indivíduo.

Neste momento nosso autor afirma que "o conhecimento da garantia certa da morte a todos da espécie humana, torna-se obstáculo a paz de espírito, a sensação de segurança"; pois de certo modo  "o homem é a única criatura viva que sabe da sua transitoriedade", tal como afirma Heidegger 'nem todos vivem necessariamente para a morte', mas todos à sombra da morte. A transitoriedade da vida nos colocará sob  perspectivas heterônomas e autônomas e a transcendência e a finitude unidas pela nacionalidade darão sentido à vida mortal.

Ainda, será perceptível que por conta da insegurança gerada no mundo moderno, tornar-se-á justificável a busca de orientação na astrologia, adivinhação, no bilhete de loteria, tornando o apelo religioso necessário e justificável.

Contudo, a passagem para o estágio final da modernidade ou para a condição pós-moderna, não produzirá maior liberdade individual; apenas transformará o indivíduo de cidadão político em consumidor de mercado. O ganho da liberdade no estágio final da modernidade será apenas ilusório. A conquista da liberdade custa insegurança, medo e incerteza. E a segurança custa a perda da liberdade.

Quem quiser mergulhar mais um pouco em busca da política no contexto da modernidade, recomendo a leitura do livro, é uma excelente obra do autor.

_____________________________________________

BAUMAN, Zygmund. Em busca da política. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.





Tudo posso naquele que me fortalece (Fp. 4:13).

"Tudo posso naquele que me fortalece", ao contrário da tônica triunfalista empregada por diversos setores evangélicos, representa na verdade uma das maiores expressões de contentamento do Apóstolo Paulo.
Antes de Paulo ancorar esta expressão em sua carta, ele afirma ter aprendido o sofrimento, e tal expressão "posso todas as coisas", significa um contínuo aprendizado que o apóstolo alcançou contido de uma capacidade de suportar o sofrimento, tudo isto pela graça do Senhor Jesus Cristo em sua vida.
Talvez tenhamos que aprender a nos contentar um pouco mais com o que temos no mundo em que vivemos, relendo palavras como estas do apóstolo Paulo.

Alexandre da Silva Chaves

Alexandre da Silva Chaves