segunda-feira, 6 de maio de 2013

Filosofia no currículo escolar, aprendizagem e exercício!


A aprendizagem e exercício de filosofia devem andar juntos?

Antes de respondermos, pensemos um pouco sobre o papel e a importância da filosofia na formação do ser humano a partir da realidade escolar.

Qual o valor de se ensinar filosofia para a vida?

Essa resposta possui perspectivas tanto favoráveis quanto contrárias a sua inclusão ou permanência em um currículo escolar. o que se torna claro é que a filosofia encontra dificuldade de ser percebida como importante, se pensada como possuindo definitivamente um lugar na educação escolar.       

Não se trata de encontrar culpa na disciplina por ser compreendida como "disciplina de pouco valor" para a educação, mas de perceber a existência de um sentimento de repulsa por parte do estudante, por conta de uma "cultura educacional" altamente pragmática, tecnicista, a qual busca uma formação de mão de obra especializada. Este tipo de formação exige que ao final de todo o processo de aprendizado, o indivíduo esteja pronto para pensar primordialmente sob o nível operacional, como por exemplo o nível de operar uma máquina. É por isto que que a formação escolar cada vez mais busca e exige respostas simples a perguntas do tipo:

Como faço isto?  Como resolvo aquilo?            

O único propósito de encontrar respostas a tais perguntas é o de encontrar os meios de fazer as coisas funcionarem, deixando pouco tempo para a curiosidade, ou para perguntas que busquem o "porquê da coisa?".

Falta a preocupação e a sensibilidade às peguntas que considerem as razões das coisas, os motivos existentes mas não sobressalientes. São tais perguntas, que buscam a natureza oculta das coisas, que ultrapassem o "ser aí" da existência e da realidade, que tornam capaz o indivíduo de emancipar sua consciência e pensamento. 
Observe que se substituirmos as perguntas anteriores, pelas próximas, já avançamos um pouco em nosso conhecimento sobre a realidade das coisas:

Por que fazermos as coisas funcionarem?
Por que não existem outras formas de fazermos as coisas?
É realmente necessário fazer o que faço?

Educação filosófica vivencia a luta de quem busca despertar a curiosidade nas pessoas a fim de que superem o lugar comum das coisas, a visão de que estão convencidos de que as coisas são sempre assim, quer dizer do mesmo jeito, e isto os convence de aceitar determinada "verdade".

Conseguir superar o olhar comum sobre as coisas, requer um exercício de reflexão, o qual nos conduz a conquista de certa autonomia, e de certa forma, isto pode nos fazer enxergar além daquilo que chamamos de natural, de comum, e que já afirmamos "é assim mesmo".

O olhar que reflete as coisas comuns, superando-as, faz-nos encontrar uma perspectiva a mais sobre a construção da realidade, descobrimos aquela coisa que ninguém enxerga ou está disposto a enxergar.     

Tal posicionamento, é posicionamento filosófico, é postura do filósofo diante do ensino, e isto normalmente o deixa diante da angústia sobre a verdade,  diante de um intenso conflito de idéias.               

Este conflito que a filosofia produz, coloca o sujeito diante do desvelamento e da autonomia, e com isto da possibilidade de construirmos e reconstruirmos o mundo das coisas, pela linguagem, pelos conceitos.

De modo que ensinar filosofia pode acabar por possuir função terapêutica, o mestre pode, ao conduzir o discípulo, ajuda-lo a criar condições de encontrar a sua autonomia, colocando-o em posição de leitor do mundo, da realidade e da vida, fazendo isto com os próprios olhos.

Inicialmente este exercício gerará certo desconforto, mas o esforço de enxergar o que a realidade desvelada tem a nos dizer além do que sempre afirmamos ser “comum” e “natural”, produzirá descobertas interessantes e novas perguntas jamais imaginadas.    

A conquista de tal "autonomia" ou de sua possibilidade exige um duplo esforço, do sujeito docente e discente, que será:

1) (docente) - convencer a mim mesmo de que é possível auxiliar o outro a encontrar tal possibilidade de "sair dos lugares comuns" , e                

2) (docente/discente)- convencê o discípulo de que existe esta necessidade, se é que ele considere necessário, de enxergar o mundo com certa autonomia.               

Desta forma, a tarefa da filosofia tornar-se-á complexa, difícil como tarefa escolar, e só se tornará convidativa caso convide a vida, a realidade e tudo àquilo que cerca o discípulo, a buscar em suas experiências as 'aporias' da realidade, a fim de não participar somente do ensino da filosofia, mas principalmente do fazer a filosofia, do filosofar, do pensar com autonomia, do questionar, do poder duvidar, do poder  acreditar e consequentemente do poder desacreditar, enfim, antes de tudo de criar condições de se poder perguntar.       

O que tornará a tarefa docente nobre, importante e de grande valor será a sua proposta de fazer da filosofia como um instrumento capaz de desvelamento da realidade, tal como apresentado pelo velho Sócrates, tal como apresentado pela crítica da Escola de Frankfurt, tal como proposto por Theodor Adorno.               

O papel da Filosofia na educação é tão ousado que ela será por excelência a promotora do desvelamento da realidade. Este caráter de educar para promover a emancipação se torna coerente e próximo do que pretende a filosofia até mesmo Lei de Diretrizes e Bases da Educação e dos Parâmetros Curricular Nacional do Ensino Médio, onde destaca o papel da Filosofia na educação média.     

Assim é possível pensar que primeiro conquistamos a emancipação do pensamento, a capacidade de pensar com autonomia, depois de criarmos topóis, podendo os desfazer  a partir de novos conceitos criados como propõe Deleuze, filósofo que define filosofia como a possibilidade de conceituar a realidade, produzindo e reproduzindo a realidade histórica de modo consciente.       

Sim, será a resposta a nossa pergunta inicial caso a nossa opção de ensino seja por uma relação com o conhecimento que leve em consideração o vivermos sem acostumarmos a vista com o que enxergamos, questionando a realidade apresentada aos nossos olhos, nos tornando capazes de enxergar além daquilo que o domínio comum do raciocínio é capaz de enxergar, fugindo das definições simples, mergulhando na realidade presente em busca de novas repostas.

Façamos tudo isto mas não sozinhos, façamos isto acompanhados sempre, e sempre que possível de novos discípulos, novos alunos, numa relação e aprendizagem e exercício junto a realidade de nossos "discípulos".

Professores, eis o desafio da filosofia, não somente na sala de aula, mas na realidade, na vida!

Tudo posso naquele que me fortalece (Fp. 4:13).

"Tudo posso naquele que me fortalece", ao contrário da tônica triunfalista empregada por diversos setores evangélicos, representa na verdade uma das maiores expressões de contentamento do Apóstolo Paulo.
Antes de Paulo ancorar esta expressão em sua carta, ele afirma ter aprendido o sofrimento, e tal expressão "posso todas as coisas", significa um contínuo aprendizado que o apóstolo alcançou contido de uma capacidade de suportar o sofrimento, tudo isto pela graça do Senhor Jesus Cristo em sua vida.
Talvez tenhamos que aprender a nos contentar um pouco mais com o que temos no mundo em que vivemos, relendo palavras como estas do apóstolo Paulo.

Alexandre da Silva Chaves

Alexandre da Silva Chaves