sábado, 16 de agosto de 2014

Teologia Contemporânea - Aula 01

Resumo da aula de 16 de agosto de 2014 - apresentada aos meus alunos do curso de Bacharelado em Teologia


Poderíamos iniciar a nosso programa de teologia contemporânea falando sobre os grandes teólogos do século XX. Acredito que isso não seria completamente inadequado, aliás, penso que seria o mais desejado pelos alunos, o ir direto ao assunto. Mas o professor quando tem compromisso de apresentar o conteúdo da disciplina em relação com a formação de seus alunos, ela jamais poderá se pautar nessa relação apresentar um conteúdo que agradaria aos seus alunos.
Ocorre que se escolhêssemos esse caminho perderíamos uma grande oportunidade de compreender como muitos temas da teologia contemporânea vieram  a acontecer. Nenhuma teologia é elaborada no vácuo, ninguém consegue falar sobre os seus próprios ombros em meio a uma multidão,  é sempre necessário subirmos aos ombros de um ou mais gigantes para sermos vistos, ouvidos e compreendidos quando falamos.
Desta forma, o itinerário escolhido por esse professor foi o de olharmos para trás e dialogarmos com quem nos deu subsídios para pensar uma teologia com a qual possamos dialogar e compreender os seus fundamentos.
Situemo-nos com o uso de um pleonasmo muito comum, que é ‘comecemos do começo’, sei que isso é redudante, mas precisamos reforçar a importância de nosso debate, a fim de compreendermos o que aconteceu com a teologia antes dos séculos XIX e XX, e quais foram as condições que lhe possibilitaram se articular com o mundo moderno. Neste caso, precisaremos olhar pelo retrovisor da história em diálogo com a filosofia. A relação filosofia e teologia sempre foi uma relação “conturbada”, de modo que não podemos hoje afirmar que existe uma relação de diálogo perfeito entre estas duas formas de reflexões.
No início da Igreja cristã, logo nos primeiros séculos de sua existência, essa relação já era belicosa, polêmica e emblemática. Justino Martir e Clemente de Alexandria buscavam defender um diálogo entre a teologia cristã e a filosofia grega, inclusive tentando convencer o mundo cristão de que muitos pagãos (como chamavam os não cristão), haviam sido levados à verdadeira religião através da filosofia. De outro lado desta polêmica relação se colocava Tertuliano, rejeitando o argumento de Justino e Clemente, chegava a afirmar que em alguns casos a filosofia seria a raiz da heresia (heterodoxia, desvio, afastamento da doutrina e da fé).
Assim a história da filosofia da religião torna-se uma história da acusação de ambos os lados destes discursos, entre filósofos, místicos e apologetas. A filosofia pouco a pouco passaria a tomar parte dos debates teológicos, e como se isso não fosse o bastante, também começaria a interferir no conteúdo da teologia, chegando a estabelecer o padrão para construção de parte do pensamento moderno, o qual romperia com o pensamento medieval.
O período medieval é o tempo que corresponde ao momento histórico e cultural, onde a teologia e a filosofia orientam a vida e a sociedade em seus mais diversos valores, considerados por uma grande parte dos historiadores e filósofos da história como, inaugurada com Agostinho, por volta do século V, perto da época da queda do império romano e tendo seu declínio por volta do século XV, quando se inaugura a idade moderna com a ciência e a reforma protestante.
No chamado período medieval, o conhecimento era limitado a certeza dos dogmas da igreja. No pensamento moderno o que se procura romper é justamente esses limites; se o modelo de conhecimento do mundo medieval se vale do paradigma “fé e razão”, sendo tais os produtores do todo o conhecimento do mundo; o pensamento moderno elegerá um novo paradigma, que colocará a religião praticamente para fora da explicação do mundo natural, o rompimento se dará no reposicionamento do paradigma, uma vez que o que norteará o conhecimento moderno será a “razão e a ciência”, denominados de fundamentos do verdadeiro conhecimento.
Essa mudança proporcionará uma virada na concepção do mundo a partir de formulações e proposições teóricas como as de Copérnico (heliocentrismo) e de Galileu (movimento dos astros e existência de outros sistemas no universo).
A teologia sofrerá enorme impacto a partir de tais descobertas, fato esse que a colocará para fora de sua zona de conforto (os castelos e universidades medievais), forçando-a a dialogar com o mundo, por meio da ciência e da razão, buscando se colocar agora ao lado da ciência.
A Reforma Protestante será uma tentativa de resposta ao mundo moderno (uma abertura para o mundo), e o Concílio de Trento uma contra-resposta ao protestantismo e ao mundo moderno (um fechamento ainda maior a modernidade).
A teologia desde então será questionada quanto:
Seu lugar no mundo e na academia (?),
Acerca de seu valor para os homens e para conhecimento (?)
Os séculos XVI, XVII e XVIII são fundamentais para compreendermos os resultados da teologia, os quais se produzem como respostas ao mundo moderno, e tais respostas se articularam durante os séculos XIX e XX. Assim nestes últimos dois séculos observaremos a teologia contemporânea como alguns teólogos definem sendo um “estudo analítico-crítico das manifestações teológicas surgidas após a reforma protestante, em geral contrárias a reforma”
(o que não significa que por serem contrárias, estão ou são equivocadas).
Ressalto que a definição acima, pode reduzir o papel da teologia contemporânea ao definir que o diálogo da teologia contemporânea se restringe com o que se afirma na reforma e a partir da reforma protestante.
Penso que a teologia contemporânea têm uma atribuição bem mais ampla, inclusive de dialogar com o mundo moderno através de temas e áreas como “cultura, ciência, modernidade, pobreza, trabalho, economia” etc.

Alexandre da Silva Chaves
Professor de Teologia Contemporânea
Instituto de Educação Teológica do Estado de São Paulo
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Textos utilizados para leitura e debate nesta aula

AGOSTINHO, Aurelius. O Conhecimento de Deus. In: Solilóquios. São Paulo: Escala, 2006.
ABELARDO, Pedro. Lógica para principiantes. São Paulo: Nova Cultural, 1986.
COSTA, Hermisten Maia Pereira da. “Introdução”,  p. 15-26. In: Raízes da teologia contemporânea. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
MACKINTOSH, Hugh R. “Antecedentes”, p. 11-29. In: Teologia moderna. São Paulo: Novo Século, 2002.
BROWN, Colin. “Introdução; A filosofia medieval”, p. 09-27. In: Filosofia e fé cristã. São Paulo: Vida Nova, 1999.


Tudo posso naquele que me fortalece (Fp. 4:13).

"Tudo posso naquele que me fortalece", ao contrário da tônica triunfalista empregada por diversos setores evangélicos, representa na verdade uma das maiores expressões de contentamento do Apóstolo Paulo.
Antes de Paulo ancorar esta expressão em sua carta, ele afirma ter aprendido o sofrimento, e tal expressão "posso todas as coisas", significa um contínuo aprendizado que o apóstolo alcançou contido de uma capacidade de suportar o sofrimento, tudo isto pela graça do Senhor Jesus Cristo em sua vida.
Talvez tenhamos que aprender a nos contentar um pouco mais com o que temos no mundo em que vivemos, relendo palavras como estas do apóstolo Paulo.

Alexandre da Silva Chaves

Alexandre da Silva Chaves